quinta-feira, 29 de maio de 2014

COPA 4: futebol levado a sério

Bola 



“A palavra campo designa um terreno extenso e não acidentado, e, para além de sua acepção agrícola, o espaço capaz de tornar-se o teatro de um jogo de forças, sugerido pela palavra alemã Kampf, da mesma raiz, significando luta, e pela palavra campeão, o lutador. O campo está a um passo da arena e guerra. Mas uma arena que se presta mais à visibilizaçao do combate, isto é, à sua espetacularização e sua simbolização, do que à sua realização literal, quando ele não se destina expressamente a fins agressivos e passa a decidir, num tira-teima ritual com o outro, sob o olhar de outros, quem detém, por um momento ritualizado, o domínio de uma modalidade. (...) É essencial entender, também , que , ao dar forma lúdica ao mito da concorrência universal, o futebol criou o campo simbólico onde essa concorrência muda de sentido – tanto socialmente, já que apropriada por agentes que não teriam oportunidade no campo da competição econômica (operários ingleses ou brasileiros pobres, por exemplos), quanto simbolicamente, já que a concorrência se dá em código corporal e não verbal, irradiante de sentidos não determinados, desfrutando de um estatuto correspondente ao da autonomia da obra de arte.” (...) De qualquer modo, dizia Pasolini, o delírio do gol é puramente poético, chegue-se a ele por uma via ou por outra, e, como tal, é o momento e o lugar em que a diferença entre prosa e poesia se desfaz, já que ‘todo gol é sempre uma invenção, é sempre uma subversão do código: todo gol é inexorabilidade, fulguração, estupor, irreversibilidade”. 

In Veneno Remédio, O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, 2008.

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