sábado, 31 de maio de 2014

COPA 5: futebol levado a sério

 



“A saturação do tempo cotidiano pelo futebol é o índice de um processo maior. Ele acompanha, pode-se acrescentar, a passagem da dominância do trabalho à do labor, nos termos formulados por Hannah Arendt em A condição humana: o trabalho reverte na produção de obras duráveis que contrastam com a mortalidade da nossa condição, e tem no descanso um momento de suspensão desperdiçante; o labor é uma atividade que se consome ao se reproduzir, e que se confunde com o próprio ritmo incessante da vida orgânica. Se o trabalho alterna com o descanso, o labor não conhece descanso, que nele toma a forma específica do lazer. O lazer não é uma suspensão do tempo do trabalho mas a recarga cotidiana que dá suportabilidade ao labor sem obra, fazendo-se seu duplo. A repetição compulsória do futebol participa do processo pelo qual algo de insuportável no mundo (o labor sem obra), a ser mitigado dia a dia sob a forma de mercadoria continuamente reposta, repõe de forma viciosa, com sua avalanche ad infinitum e ad nauseam, o insuportável no mundo.

É dessa forma que a lógica empresarial tecnocientífica e multinacional intervém sobre a ‘lógica dialética’ e a ‘lógica da diferença’, que comandariam o jogo propriamente dito dentro do campo: contendo-o exaustivamente no círculo estreitante de seu aparato tecnocientífico e mercadológico-publicitário, levado pelo tempo implacavelmente cerrado dos seus calendários, e alimentando-se da energia dos jogos, a ponto de exauri-la.”

In Veneno Remédio, o futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik, companhia das Letras, SP, 2008.

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