sexta-feira, 9 de maio de 2014

Descansando ainda:

 



“Fico rindo. Não do poder que tem Santana de conservar as partidas de memória, nem da sua capacidade de ignorar os grandes  escoamentos de tempo, como o que , algum dia, hei de vê-lo tirar do bolso a carteirinha, esta mesmíssima carteirinha e propor-me a continuação daquela partida – subvariante K da variante belga do sistema Sossgovitch-Sapatogoroff do contra-ataque semi-frontal iugoslavo do peão do Bispo da Dama – interrompida, dez anos antes, precisamente no lance dezenove.
Não. Outro é o pai do: Santana, ledor de Homero e seguidor de Alhókhin, também, como um e outro, cochilou. Moveu uma jogada frouxa, e agora não tem o que escolher. Ou compromete a posição do seu rei, ou perde uma peça, porque um bispo e um cavalo poderão ser atacados, em forquilha, por um peão. Referve a confusão, nos paços de Ítaca.
Santana avermelhou-se todo; e então eu vejo que ele viu que eu tinha visto; e aí ele se zanga, por detrás das palavras:
- Não gosto de partidas fechadas. Avancei P4BR, para levar o jogo a situações violentas, com possibilidade de alguma combinação. Se tivesse...
- Não adianta falar, porque ...
- ... se tivesse mantido o desenvolvimento posicional puro...
- ... porque, como diz o capiau conterrâneo, ‘a minha parte de histórico eu prefiro em dinheiro!’...” (...)

In Sagarana, João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, RJ, 2001.

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