quinta-feira, 8 de maio de 2014

Descansando com Guimarães Rosa:




“Chove. Chuva. Moles massas. Tudo macio e escorregoso. Com o que proferiu Gotama Buddha, o pastor dos insones, sob outras bananeiras e mangueiras outras, longínquas:
“Aprende do rolar dos rios,
Dos regatos monteses, da queda das cascatas:
Tagarelante, ondeia o seu caudal –
Só o oceano é silêncio.”
Mas, do mudo fundo, despontam formas, se alongam. Anfitrites dormidas, na concha da minha mão, e andiômenas a florirem da espuma.
Eu tinha cochilado na rede, depois de um almoço gostoso e pesado, enquanto Tio Emílio, na espreguiçadeira, lia sua pilha de jornais de uma semana. A varanda era uma praia de ilha, ao mar da chuva. Meu espírito fumaceou, por ares de minha só posse – e fui, por inglas de Inglaterras, e marcas de Dinamarcas, e landas de Holanda e Irlanda. Subi à visão de deusas, lentas apsaras de sabor pétalas, lindas todas: Daria, da Circássia; Ragna e Aase; e Gúdrun, a de olhos cor dos fiordes; e Vívian, violeta; e Érika, sílfide loira; e Varvára, a de belos feros olhos verdes, e a princesa Vladislava, císnea e junoniana; e a princesinha Berengária, que vinha, sutil, ao meu encontro, no alternar esvoaçante dos tornozelos preciosos...
Quem veio foi Maria Irma, num vestido azul-marinho, um tanto corada e risonha. 
- Sonhei. Sonhei demais, prima... Que é do tio?
- Foi dormir na cama, que é lugar mais quente.
- E você?
- Queria perguntar uma coisa...
- Pergunte, Maria Irma.
- Não. Não sou curiosa.
- Então, eu sei o que é...
- Então?
- É a respeito... Bem, é sobre... Você quer saber se eu deixei algum amor, a esperar por mim?
- Se deixou, ou não, não me interessa...
- Então, por que você quis perguntar, prima?
- E por que foi que você adivinhou a pergunta, primo?”

In Sagarana, João Guimarães Rosa, Editora Nova Fronteira, RJ, 2001.



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