sábado, 21 de junho de 2014

IDEIAS BRASIL 5:



FICAR EM CASA



O dia de ontem foi do Trabalho. Isso, traduzido na gíria burguesa, quer dizer: Dia-de-ficar-em-casa. De ficar em casa, de pijama listrado ou robe de chambre, conforme as posses e gostos do indivíduo, com os respectivos chinelos e o indispensável maço de cigarros. Assim preparado para encher o espaço que vai da hora do almoço à do jantar, o bom burguês recolhe-se à sua poltrona, ou ‘chaise longue’, ou rede, ou simplesmente cadeira de palhinha, pega um livro ou o ‘Jornal do Commércio’ (o ‘Jornal do Commércio’ é um símbolo) e lê. Mas também é livre de dormir, de contar as florinhas do barrado estilo alemão que enfeita as paredes de seu escritório, se este é modesto, ou contemplar as paisagens e marinhas que nelas se dependuram, se é um escritório com pretensões artísticas e literárias. Nem mesmo tem obrigação de ficar em casa, a não ser essa obrigação moral do feriado, a cujo sentido está sempre ligada uma vaga e doce ideia doméstica de pijama e chinelos, com um vasto café com biscoitos às duas horas, no ‘decor’ inconfundível da sala de jantar: a louça burguesa espalhada entre os cristais e espelhos dos móveis também burgueses, e uma fruteira espetaculosa ostentando as melhores laranjas e as mais vermelhas maçãs de Barcelona (ou da Argentina). Este é o feriado-modelo, o feriado ‘standard’, herança transmitida religiosamente de pais a filhos, tradição na qual não convém bolir, como aliás em qualquer tradição.

É possível que falte vivacidade e mesmo pitoresco a essa interpretação familiar das efemérides cívicas. Mas é tão familiar e gostosa, que ninguém se lembra de protestar contra ela. E daí, para quê?

A doce alma patriarcal de Belo Horizonte espreguiça-se, satisfeita, em dias como o de ontem. Um feriadozinho, hem? Sim, senhores, a vida não tão difícil assim. Na monotonia dura dos meses que se sucedem sem se renovarem – trabalho, trabalho, trabalho – lá de vez em quando aparece o oásis de um feriado, palma verde acenando na cinza do poente, e uma beatitude integral nos invade a alma e os calos, reclamando com urgência, para se expandir, o complemento indispensável do chinelo e do pijama.

Em dias assim, dá gosto a gente mergulhar num vasto número de ‘Ladie’s Home Journal’, por exemplo, com a sua tinta fresca no papel fino, as suas gravuras de um colorido limpo e doce, os seus contos repousantes da Mary Lindsay Squier e outras Mary, os seus saborosíssimos anúncios ilustrados de ‘cakes’, ‘puddings’, ‘bread’, representados nas mais lindas porcelanas do mundo (não há nada que nos convide mais ao pecado da gula que um anúncio de farinhas de uma revista americana do lar). A folhinha, na parede, está marcando ironicamente o Dia do Trabalho. Mas a nossa folhinha interior marca o Dia da Preguiça.

In Carlos Drummond de Andrade, Crônicas – 1930-1934, Secretaria de Estado da Cultura, Banco de Desenvolvimento de MG, 1987.

 rede e indios

sexta-feira, 20 de junho de 2014

IDEIAS BRASIL 4

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CORAÇÃO NUMEROSO


Carlos Drummond de Andrade



Foi no Rio.

Eu passava na Avenida quase meia-noite.

Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.

Havia a promessa do mar

E bondes tilintavam,

Abafando o calor

Que soprava no vento

E o vento vinha de Minas.



Meus paralíticos sonhos desgosto de viver

(a vida para mim é vontade de morrer)

Faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente

Na Galeria Cruzeiro quente quente

E como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,

Nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.

 Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.

O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.

In Os cem melhores poemas brasileiros do século, Editora Objetiva, RJ, 2001.


quinta-feira, 19 de junho de 2014

IDEIAS BRASIL 3

Jornal do Brasil: Segunda-feira, 20 de julho de 1987 


foto: Marcelo Teraza/SXC

http://www.youtube.com/watch?v=edC06rjUZAY




Sei lá, Mangueira...

Vista assim do alto
Mais parece um céu no chão
Sei lá,
Em Mangueira a poesia

feito um mar, se alastrou
E a beleza do lugar, pra se entender
Tem que se achar...
Que a vida não é só isso que se vê
É um pouco mais....

Que os olhos não conseguem perceber
E as mãos não ousam tocar
E os pés recusam pisar
Sei lá não sei...
Sei lá não sei...

Não sei se toda beleza de que lhes falo
Sai tão somente do meu coração
Em Mangueira a poesia
Num sobe e desce constante
Anda descalça ensinando
Um modo novo da gente viver
De sonhar, de pensar e sofrer
Sei lá não sei, sei lá não sei não
A Mangueira é tão grande
Que nem cabe explicação...

UM JUSTO MOTIVO PARA GANHAR A COPA DO MUNDO:

PARA OFERECER A ELE:

chico buarque.jpg

HÁ SETENTA ANOS NASCIA O MAIS.....
(cada brasileiro sabe dizer muito mais de setenta coisas buarquianas lindas )


LINDO BRASILEIRO DOS BRASILEIROS LINDOS. COM LICENÇA (OU AJUDA, SEI LÁ...) DO SÉRGIO BUARQUE DE HOLANDA, A MAIOR E MAIS ADMIRADA VIRTUDE DO BRASILEIRO É SER LINDO. DE ALMA, SE BEM ME ENTENDEM.
"TÃOVENO?"
Chico Buarque de Holanda.jpg
 EU SOU BUARQUIANA COM MUITO ORGULHO, PAIXÃO E MUITOS OUTROS INDIZÍVEIS ÃOS...
SEM PALAVRAS. O QUE SERÁ QUE ME DÁ?

 
MINHA GRATIDÃO ETERNA, 
MEU GURI!  
MEU CHERO! 
MEU IRMÃO! 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

IDEIAS BRASIL 2




EPITÁFIO
Vinicius de Moraes
Aqui jaz o Sol
Que criou a aurora
E deu a luz ao dia
E apascentou a tarde.

O mágico pastor
De mãos luminosas
Que fecundou as rosas
E as despetalou.

Aqui jaz o Sol
O andrógino meigo
E violento, que

Possui a forma
De todas as mulheres
E morreu no mar.

In Poesia Completa e Prosa, Vinicius de Moraes, Editora Nova Aguilar, RJ, 1976.

terça-feira, 17 de junho de 2014

IDEIAS BRASIL 1



ROMANCE XXI OU DAS IDEIAS



A vastidão desses campos.

A alta muralha das serras.

As lavras inchadas de ouro.

Os diamantes entre as pedras.

Negros, índios e mulatos.

Almocafres e gamelas.

 

Os rios todos virados.

Toda revirada, a terra.

Capitães, governadores,

Padres, intendentes, poetas.

Carros, liteiras douradas,

Cavalos de crina aberta.

A água a transbordar das fontes.

Altares cheios de velas.

Cavalhadas. Luminárias.

Sinos. Procissões. Promessas.

Anjos e santos nascendo

Em mãos de gangrena e lepra.

Finas músicas broslando

As alfaias das capelas.

Todos os sonhos barrocos

Deslizando pelas pedras.

Pátios de sexos. Escadas.

Boticas. Pontes. Conversas.

Gente que chega e que passa.

E as ideias.

 Furnas em Minas Gerais

Amplas casas. Longos muros.

Vida de sombras inquietas.

Pelos cantos das alcovas,

Histerias de donzelas.

Lamparinas, oratórios,

Bálsamos, pílulas, rezas.

Orgulhosos sobrenomes.

Intricada parentela.

No batuque das mulatas,

A prosápia degenera:

Pelas portas dos fidalgos,

Na lã das noites secretas,

Meninos recém-nascidos

Como mendigos esperam.

Bastardias. Desavenças.

Emboscadas pela treva.

Sesmarias. Salteadores.

Emaranhadas invejas.

O clero. A nobreza. O povo.

E as ideias.

 Cidades em Minas Gerais

E as mobílias de cabiúna.

E as cortinas amarelas.

D. José. D. Maria.

Fogos. Mascaradas. Festas.

Nascimentos. Batizados.

Palavras que se interpretam

Nos discursos, nas saúdes...

Visitas. Sermões de exéquias.

Os estudantes que partem.

Os doutores que regressam.

(Em redor das grandes luzes,

Há sempre sombras perversas.

Sinistros corvos espreitam

Pelas douradas janelas.)

E há mocidade! E há prestígio.

E as ideias.

 

As esposas preguiçosas

Na rede embalando as sestas.

Negras de peitos robustos

Que os claros meninos cevam.

Arapongas, papagaios,

Passarinhos da floresta.

Essa lassidão do tempo

Entre embaúbas, quaresmas,

Cana, milho, bananeiras

E a brisa que o riacho encrespa.

Os rumores familiares

Que a lenta vida atravessam:

Elefantíases; partos;

Sarna; torceduras; quedas;

Sezões; picadas de cobras;

Sarampos e erisipelas…

Candombeiros. Feiticeiros.

Unguentos. Emplastos. Ervas.

Senzalas. Tronco. Chibata.

Congos. Angolas. Genguelas.

Ó imenso tumulto humano!

E as ideias.
 redario praia

Banquetes. Gamão. Notícias.

Livros. Gazetas. Querelas.

Alvarás. Decretos. Cartas.

A Europa a ferver em guerras.

Portugal todo de luto:

Triste Rainha o governa!

Ouro! Ouro! Pedem mais ouro!

E sugestões indiscretas:

Tão longe o tronco se encontra!

Quem no Brasil o tivera!

Ah, se D. José II

Põe a coroa na testa!

Uns poucos de americanos,

Por umas praias desertas,

Já libertaram seu povo

Da prepotente Inglaterra!

Washington. Jefferson. Franklin.

(Palpita a noite, repleta

De fantasmas, de presságios...)

E as ideias.

 A chegada dos portugueses em 1500 iniciou um novo período da História do Brasil, fundamental para a formação do país

Doces invenções da Arcádia!

Delicada primavera:

Pastoras, sonetos, liras

- entre as ameaças austeras

De mais impostos e taxas

Que uns protelam e outros negam.

Casamentos impossíveis.

Calúnias. Sátiras. Essa

Paixão da mediocridade

Que na sombra se exaspera.

E os versos de asas douradas,

Que amor trazem e amor levam...

Anarda. Nise. Marília...

As verdades e as quimeras.

Outras leis, outras pessoas.

Novo mundo que começa.

Nova raça. Outro destino.

Plano de melhores eras.

E os inimigos atentos,

Que, de olhos sinistros, velam.

E os aleives. E as denúncias.

E as ideias.




 (in Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles)