quinta-feira, 12 de junho de 2014

A COPA 11: futebol levado a sério

 
“O samba [o futebol], a prontidão e outras bossas/ são nossas coisas/ são coisas nossas’ é, portanto, um enunciado complexo, em que as palavras-chave oscilam entre o sentido e seu oposto, pondo em questão o conjunto. No próprio vai-e-vem em que nossas coisas são coisas nossas (o que não é exatamente a mesma coisa), ecoa um mais-de-gozo que é uma espécie de mais-valia às avessas, que tira seu lucro da falta. Curiosamente, esse não-lugar da linguagem é justamente um correspondente eficaz do estilo futebolístico que estávamos tentando propor, e um traço marcante da cultura que desliza na alusão, na síncopa, no drible, e que não fixa os sentidos no pé da letra. Ao contrário, provoca e desfruta o fato de que eles escorregam e abrem um hiato propositalmente sem sentido, ou de excesso e falta dele. Não que esse hiato se esgote no nonsense, mas ele é justamente o lugar do lapso criativo, da suspensão que admite o vazio sem o qual não se formula o inesperado. Ao mesmo tempo, é uma estratégia congenial à condição da carência, da falta e da pobreza. Com isso, ele não reproduz o discurso do poder que tem como agente um significante já dado, que polariza todos os demais, mas se arrisca a produzir o imprevisto complexo que vemos em Pelé e Coutinho,em Garrincha, em Leônidas e no samba. Essa síndrome popular cria,desse modo, uma zona própria de ação que foi encontrar, nas condições brasileiras, seu terreno fértil na música e no futebol. Os custos a pagar por esse hibridismo e essa hybris, por esse excesso que vacila na falta de um limite, sempre assinalado por Machado de Assis, será retomado adiante.” 

 In Veneno Remédio, O futebol no Brasil, José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, SP, 2008. 
 Músico, compositor e ensaísta José Miguel Wisnik | Foto: Festcine Amazonia

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