terça-feira, 10 de junho de 2014

A COPA: futebol levado a sério 10

 



“O exame de um conhecido refrão de um samba de Noel Rosa pode enriquecer o problema e ajudar a remetê-lo a um outro plano de entendimento, onde se relativiza e supera, por sua vez, a explicação racial: ‘O samba, a prontidão e outras bossas; são nossas coisas/ são coisas nossas”. Convenhamos que, para jogar devidamente com essas palavras, precisamos perceber que elas mesmas jogam com o verso e o reverso do que dizer, de maneira irônica e auto-irônica. Elas não se tomam inteiramente ao pé da letra, mas instauram uma margem de alusão ao que não está dito, ao que não é simbolizável, o gozo de um sentido que não está dado pela linguagem, mas que se goza na sobra, na falta, na impossibilidade cabal de se simbolizar. Exemplificando com o nosso caso concreto: se a palavra prontidão é o significante do desembaraço, da desenvoltura, da capacidade de improvisação incorporada de que falamos, ela é também o da falta de dinheiro, da ausência de recurso, da ‘dureza’ – vale dizer, ela é simultaneamente um traço de excesso e de carência, de mais e de menos. Para jogar o jogo que ela instaura, temos de suportar o fato de que a palavra diz ao mesmo tempo uma coisa (o desembaraço), a outra (a pobreza), e ainda outra: o ponto mais-que-irônico em que esses sentidos opostos se somam e se abolem, sem se reduzir. A linguagem é afirmada no seu ponto de suspensão: não é fixada na letra, mas desliza indeterminada, somando-se a outras bossas. A própria palavra bossa, por sua vez, designando originariamente uma saliência craniana que a frenologia acreditava ser capaz de determinar disposições do intelecto, com o risco de caracterizar um estigma racial, virou no Brasil o significante de um ‘patrimônio imaterial’ de difícil nomeação: a ginga, o jeito, a disposição a habitar o intervalo do ritmo, os hiatos da linguagem, os meneios do corpo, ou seja, um equivalente mais qualificado de prontidão. Pode-se dizer que bossa é uma prontidão avisada, que conhece os atalhos do tempo e do espaço, que vai sem pressa e sem abrir mão da graça e da malícia.”

In Veneno Remédio, O futebol no Brasil, José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, SP, 2008.
 

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