sexta-feira, 13 de junho de 2014

A COPA : segundos estudos 12 - futebol levado a sério



 A diversidade é um elemento central para se entender a formação do povo brasileiro.
“Mais do o previsível medo de perder, a final da Copa de 1950 parece apontar também para uma espécie de medo paralisante diante da vitória, que seria, também ela, excessivamente real. Nelson Rodrigues imortalizou esse sentimento na fórmula do ‘complexo de vira-latas’, que assombraria o povo colonizado e mestiço com a incapacidade doentia de aceitar a própria potência. Esse complexo é tanto mais irônico e cruel pelo fato de contracenar com o colosso de concreto do Maracanã. A existência do estádio confere à partida final de 1950 nada mais nada menos do que a condição espantosamente derrisória de ser o maior espetáculo do fracasso in loco já visto na história, o campeonato mundial da derrota ao vivo – numa gratificação cruel e invertida das projeções da fantasia.

Numa crônica chamada “A derrota”, José Lins do Rego fala de uma ‘ideia fixa que se grudou na [sua] cabeça, a ideia de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada têm que esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações.” [...] Consola-o desse pesadelo, no entanto, a sensação da presença, no episódio, de uma entidade, não se sabe se nova ou recorrente, visível e quase tangível: o povo brasileiro, ‘uma média de homens e mulheres de todas as classes sociais’, para além dos grupos, regiões ou classes, ‘o Brasil em corpo inteiro’. Em resumo, um povo perseguido ‘pela mesquinharia do destino’, mas um povo. O já citado jornalista do World Sports, Willy Meisl, comovido com a multidão estarrecida e, ainda assim, capaz de aplaudir os vencedores, vai mais longe na mesma linha: escreve que ‘acabava de presenciar a um daqueles raros momentos na vida de um homem, quando um povo encontra a sua própria alma, quando uma nação se supera a si própria [...] Porque o Brasil foi maior na derrota do que poderia ter sido na vitória’.

In Veneno Remédio, O futebol no Brasil, José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, SP, 2008.

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