quarta-feira, 4 de junho de 2014

COPA 7: futebol levado a sério



“Voltemos ao caso em seu núcleo originário: todo esse espectro de ambivalências está anunciado, pode-se dizer, sob um crivo negativo e implacável, nas observações machadianas sobre o ser e o não-ser brasileiro. Ali, elas aparecem como a reversão insistente entre a candidatura permanente ao fracasso, por parte de uma coletividade que refuga os limites da realidade, combinada com a invenção pouco plausível de uma civilização livre e lúdica, da parte dessa ‘primeira das verduras’. O balanço de negativas machadiano ilumina e prefigura, na verdade, com a luz de seu espectro cético e com a potência reveladora da intuição aguda, um movimento que não cansa de se repetir e de se repor. E, talvez, por um efeito lateral de sua negatividade, Machado não deixou de afirmar ainda, num lapso positivo, em pleno fim do século XIX, a hipótese da nacionalização do esporte pelo caboclo-capoeira. O que ele flagra, de todo modo, numa fulguração penetrante e irônica, que está a seu modo na crônica de que falamos mas também no episódio do Emplasto Brás Cubas, é a ideia em princípio capciosa de que ‘a mais avançada das civilizações’ se confunde com a mais imatura delas – ‘a primeira das verduras’ -, anomalia que não deixa de ser o cerne do pensamento de Flusser sobre a alienação brasileira, que lhe dá um estatuto problemático mas afirmativo: de tão funda e sem lastro histórico, a alienação brasileira converte a realidade em jogo e encarna possibilidades de autêntica libertação. Assim, o veneno e o remédio se alternam e se fundem na mesma poção enigmática do caldo de cultura nacional. Pode-se dizer que alguns farmacêuticos aviam nela o remédio amargo e potencialmente letal da ironia, como Machado entre todos, vazando-lhe o espectro real; outros extraem dela o seu próprio antídoto, como Flusser e Pasolini, segundo vimos, ou Oswald de Andrade e Gilberto Freyre, como, veremos, extraindo-lhe uma potência utópica.” 

In Veneno Remédio, O futebol e o Brasil, José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, SP, 2008.

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