terça-feira, 17 de junho de 2014

IDEIAS BRASIL 1



ROMANCE XXI OU DAS IDEIAS



A vastidão desses campos.

A alta muralha das serras.

As lavras inchadas de ouro.

Os diamantes entre as pedras.

Negros, índios e mulatos.

Almocafres e gamelas.

 

Os rios todos virados.

Toda revirada, a terra.

Capitães, governadores,

Padres, intendentes, poetas.

Carros, liteiras douradas,

Cavalos de crina aberta.

A água a transbordar das fontes.

Altares cheios de velas.

Cavalhadas. Luminárias.

Sinos. Procissões. Promessas.

Anjos e santos nascendo

Em mãos de gangrena e lepra.

Finas músicas broslando

As alfaias das capelas.

Todos os sonhos barrocos

Deslizando pelas pedras.

Pátios de sexos. Escadas.

Boticas. Pontes. Conversas.

Gente que chega e que passa.

E as ideias.

 Furnas em Minas Gerais

Amplas casas. Longos muros.

Vida de sombras inquietas.

Pelos cantos das alcovas,

Histerias de donzelas.

Lamparinas, oratórios,

Bálsamos, pílulas, rezas.

Orgulhosos sobrenomes.

Intricada parentela.

No batuque das mulatas,

A prosápia degenera:

Pelas portas dos fidalgos,

Na lã das noites secretas,

Meninos recém-nascidos

Como mendigos esperam.

Bastardias. Desavenças.

Emboscadas pela treva.

Sesmarias. Salteadores.

Emaranhadas invejas.

O clero. A nobreza. O povo.

E as ideias.

 Cidades em Minas Gerais

E as mobílias de cabiúna.

E as cortinas amarelas.

D. José. D. Maria.

Fogos. Mascaradas. Festas.

Nascimentos. Batizados.

Palavras que se interpretam

Nos discursos, nas saúdes...

Visitas. Sermões de exéquias.

Os estudantes que partem.

Os doutores que regressam.

(Em redor das grandes luzes,

Há sempre sombras perversas.

Sinistros corvos espreitam

Pelas douradas janelas.)

E há mocidade! E há prestígio.

E as ideias.

 

As esposas preguiçosas

Na rede embalando as sestas.

Negras de peitos robustos

Que os claros meninos cevam.

Arapongas, papagaios,

Passarinhos da floresta.

Essa lassidão do tempo

Entre embaúbas, quaresmas,

Cana, milho, bananeiras

E a brisa que o riacho encrespa.

Os rumores familiares

Que a lenta vida atravessam:

Elefantíases; partos;

Sarna; torceduras; quedas;

Sezões; picadas de cobras;

Sarampos e erisipelas…

Candombeiros. Feiticeiros.

Unguentos. Emplastos. Ervas.

Senzalas. Tronco. Chibata.

Congos. Angolas. Genguelas.

Ó imenso tumulto humano!

E as ideias.
 redario praia

Banquetes. Gamão. Notícias.

Livros. Gazetas. Querelas.

Alvarás. Decretos. Cartas.

A Europa a ferver em guerras.

Portugal todo de luto:

Triste Rainha o governa!

Ouro! Ouro! Pedem mais ouro!

E sugestões indiscretas:

Tão longe o tronco se encontra!

Quem no Brasil o tivera!

Ah, se D. José II

Põe a coroa na testa!

Uns poucos de americanos,

Por umas praias desertas,

Já libertaram seu povo

Da prepotente Inglaterra!

Washington. Jefferson. Franklin.

(Palpita a noite, repleta

De fantasmas, de presságios...)

E as ideias.

 A chegada dos portugueses em 1500 iniciou um novo período da História do Brasil, fundamental para a formação do país

Doces invenções da Arcádia!

Delicada primavera:

Pastoras, sonetos, liras

- entre as ameaças austeras

De mais impostos e taxas

Que uns protelam e outros negam.

Casamentos impossíveis.

Calúnias. Sátiras. Essa

Paixão da mediocridade

Que na sombra se exaspera.

E os versos de asas douradas,

Que amor trazem e amor levam...

Anarda. Nise. Marília...

As verdades e as quimeras.

Outras leis, outras pessoas.

Novo mundo que começa.

Nova raça. Outro destino.

Plano de melhores eras.

E os inimigos atentos,

Que, de olhos sinistros, velam.

E os aleives. E as denúncias.

E as ideias.




 (in Romanceiro da Inconfidência, Cecília Meireles)

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