quinta-feira, 28 de agosto de 2014

REPETINDO PARA NÃO ESQUECER: e para repensar

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PRA QUÊ VOCÊ ESCREVE TANTO?

Não me lembro de onde me veio a pergunta. Lembro do meu susto. Um absurdo. Afinal ninguém se pergunta por que respira. Balbuciei sei lá, preciso escrever, deve ser porque não sei escrever, deve ser para que eu aprenda a escrever.

Estava com raiva, envergonhada como se tivessem arrancado minha roupa, à força. Mas a pergunta imbecil não me saiu da cabeça e comecei a me sentir uma imbecil teimosa. Nesse momento eu soube que sou teimosa e que escrever é uma maneira de me descobrir. Quanto à imbecilidade ainda não consegui descobri-la por inteiro. Então concluo: preciso escrever mais.

Dou-me conta de que minha escrita começa numa pausa. Certo silêncio me move para o papel. Não é qualquer silêncio, é certo. Por exemplo, o silêncio de uma noite de inverno na fazenda do meu pai sob o céu estrelado não me dá vontade de escrever. Dá-me vontade de ficar quieta, bem quieta, deitada na grama úmida, fixando o infinito pontilhado de dourado e ouvindo aquele silêncio sem fim. Só ouvindo. Eu me acabo e ainda tem um céu silente. É mágico: percebo-me no meu limitado ser, e sobra céu. Então compreendo que escrevo quando não encontro nenhum céu sobre mim e preciso assegurá-lo; preciso buscar o silêncio que é maior que eu e que, portanto, dá-me uma medida. Enfim, digo agora que escrevo para assegurar a silente sinfonia infinita de uma noite estrelada. Onde me encontro. Onde está o lugar que eu sou.

Quando escrevo encontro-me no entre palavras, na vírgula, na reticência. Na verdade, eu tropeço nas pausas. Parece ser a pontuação que me segura. Enfim, a pausa me clama, obriga-me a escrever. E a escrita me obriga a pausar. São os silêncios. Eu existo nos intervalos. Somos no entre palavras? Em não ditos?

De fato, escrevo para garantir um “ainda por dizer”. Dizendo doutra maneira: escrevo para buscar outro dizer, ou ainda, para provocar dizeres. Em verdade, digo que escrevo para encontrar o estranho. O outro. O estrangeiro. Portanto, meu escrever exige artifícios; quero fazer armadilhas para pegar os implícitos. Preciso das parábolas. Eis aí: eu preciso das citações. E agora escrevo que minha escrita é colagem de citações. De poucas coisas já não duvido, e não duvido de que quero escrever como quem faz colagens. Explícita colagem: eis a minha escrita. Segurar o outro, marcar o silêncio entre mim e ele, ou noutras palavras, colando-o, ou nos assegurar colando-nos. Simplifico: quero que minha escrita explicite a trama entre mim e o estranho a mim. Que minha escrita amarre dois, pelo menos dois. E assim nos explicite.

Foi nesse momento que me lembrei de Franz Kafka. Lembrei-me da constante inquietação que me causa e, em especial, do meu assombro quando li a reflexão de Kafka sobre um plausível silêncio das sereias. Um desconcerto semelhante ao que senti ouvindo a pergunta: pra que você escreve tanto? Ora, ora, eu nunca havia pensado nisso. Um silêncio das sereias. Franz Kafka é o mestre dos paradoxos e das parábolas, todo mundo o sabe.

E súbito percebo que eu havia escolhido Kafka, o autor das alegorias morais da modernidade e, nesse sentido, o último dos profetas, para epígrafe do meu livro “Ao longo deste sexo – episódio II”:

“Agora as sereias têm uma arma ainda mais fatal do que suas canções, ou seja, o silêncio. E, embora por certo isso jamais tenha acontecido, ainda assim é possível que alguém tenha escapado do canto das sereias. Mas de seu silêncio, certamente, jamais”.

Naquele tempo eu pensava que escrevia sobre sereias. E era verdade: eu estava escrevendo sobre sereias. Mas neste outro momento, o de agora, penso que estava escrevendo também sobre silêncios, quero dizer, escrevia por cima deles. Isso também é verdade.

A obra kafkiana é singularmente fragmentada. Em grande parte se compõe de trabalhos inconclusos, ou talvez, a inconclusão deva ser pensada como uma conclusão propriamente kafkiana. Habilidade de construir o fragmentado e a competência para evidenciar o inacabado são, por excelência, características kafkianas.

O fato é que em sua leitura da aventura de Ulisses, Kafka se deparou, para a minha perplexidade, com o silêncio das sereias. Como se perguntasse: “Se, antes da viagem do herói ninguém havia ouvido as sereias sem sucumbir, se todos sabiam que estes tolos ardis (cera e cordas, muitas cordas) não barravam seus cantos, capazes de atravessar qualquer barreira; e se os marinheiros estavam com os ouvidos tapados, como pode Ulisses saber que as sereias cantaram?”. Responde Kafka: não, as sereias não cantaram! Todavia Ulisses estava confiante na sua armadilha boba e com semblante beatífico aproximou-se das sereias, certo de que não seria seduzido. E se acaso o fosse, estaria bem amarrado. Por via das dúvidas, ordenou que o amarrassem mais, caso pedisse para ser solto. Mas, então, diz Kafka, certamente, elas não cantaram. Por que cantariam se não seriam ouvidas, e se caso fossem Ulisses não viria? Assim, cientes da quebra de seu encanto, elas continuaram seus banhos, saltitantes e felizes, mas silentes e, quiçá, indiferentes. Não cantaram! Seja porque a face jubilosa do herói fez com que se esquecessem de cantar (a sedução já se dera); seja porque se certificaram de que, nesse caso, só o silêncio, seduziria.

Pois Ulisses foi seduzido, é certo. Muita corda, muita corda foi necessária, como nos diz a Odisséia. Kafka avança: triunfar sobre o encanto sonoro das sereias contando apenas com a força humana levaria a tamanha auto-exaltação que nenhum poder terrestre ficaria incólume. Ulisses era muito esperto para se arriscar assim. Tão astuto - dizia-se que era capaz de enganar os próprios deuses - que pode ter contado com o silêncio das sereias, e por sua vez, se manter calado. Escutou o que não ouviu: eis a sua verdadeira trapaça. Ou, o que ouviu não deveria ser contado. A trapaça: silêncio sobre o silêncio, o verdadeiro escudo de Ulisses. E, diante do ardiloso Ulisses, a astúcia do silêncio das sereias. Ulisses só continuaria a ser Ulisses - o herói de muitos meios - se vencesse as sereias. E as sereias não foram vencidas, pois, de fato, continuaram a seduzir. Se cantassem e Ulisses resistisse, seria seu fim. Ambos, sereias e Ulisses eram bastante espertos para não permitirem tal desastre. Portanto, elas se calaram. E Ulisses as escutou, ou melhor, não quis ouvir seu silêncio, como diz Kafka. Puro engodo: modo de resguardar o calar das sereias e assim, salvar a ambos. O herói não enganou as sereias, mas engana a nós todos, e assim, salva a si e a nós. Isso tudo é Kafka, num pequeno fragmento de poucas linhas. Coisa de meia página. Ou, quem sabe, isso tudo é meu, sou eu usando Kafka para dizer que escrevo para me calar. E para que outros falem. Esqueçam Ulisses e Kafka e acreditem em mim. Ou não: eu me arrisco: escrevo para que eu me cale.

O silêncio das sereias teria obrigado Ulisses a ouvi-las. Muitas armadilhas estão em todo dizer; um dizer põe o não dito; tudo perigoso, mas justo e necessário para que se faça silêncio: certo silêncio é o único espaço onde dois podem coexistir. Enfim, um dizer implica um calar.

Quem escreve, e quem que lê, sabe: importa é a entrelinha. Qualquer autor escreve com a profunda esperança de que o leitor leia mais - muito mais – do que ele escreveu. Se acharem melhor, o autor escreve na esperança de que o leitor continue onde ele se calou. Pois se não for assim, o leitor não interessa absolutamente. Por seu lado, o leitor está com o autor apenas enquanto dura a certeza de que terá mais, muito mais, a ler. Este é o autor preferido: sua leitura não termina. Assim relemos e lemos outra vez Kafka, ou Guimarães Rosa. E Homero. Ou Shakespeare. Assim eu releio Clarice. O autor não se deixa apanhar; antes, quer capturar o leitor. O mesmo é certo para o bom leitor: fica com o autor que não conta a verdade inteira. Como Ulisses, como as sereias.

Este meu destino parece ter começado lá pelos sete anos, quando aprendi poemas e, neles, ouvi silêncios. Então, agora, de súbito, uma ideia avalanchou sobre minha cabeça: escrevo porque não quero falar. Talvez eu não tenha mesmo nada a dizer. Noutras palavras, escrevo para ouvir algum silêncio. Estarei certa de que haverá mais alguém aqui.

Afinal, não é a sobrevivência de Ulisses – que diz ter ouvido as sereias – que faz com que as sereias (que não ouvimos) nos seduzam?



Magda Maria Campos Pinto

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