terça-feira, 30 de setembro de 2014

100 anos de Julio Cortázar:

 Escritores-y-sus-gatos-Julio-Cortázar

“Probablemente de todos nuestros sentimientos el único que no es verdaderamente nuestro es la esperanza. La esperanza le pertenece a la vida, es la vida misma defendiéndose.”

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

100 anos de Julio Cortázar:

 

“Uma coisa é a música que se pode traduzir em emoção, e outra é a emoção que pretende passar por música. Dor paterna em fá sustenido, gargalhada sarcástica em amarelo, violeta e negro! Não, filho, a arte começa mais para cá ou mas para lá, mas nunca é isso.”

In O jogo da Amarelinha, Julio Cortázar, Civilização Brasileira,RJ, 2013.


domingo, 28 de setembro de 2014

POESIA E PRIMAVERA: para sempre Drummond



Consideração do Poema


Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.
Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.
Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.
Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.
Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.
Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

https://armonte.files.wordpress.com/2012/07/carlos-drummond-de-andrade-biografia.png

sábado, 27 de setembro de 2014

DA BELEZA DOS FRAGMENTOS:

problemas-de-autoestima

“A verdade era que, de vez em quando, ocorria que as palavras dos mortos coincidiam com o que estavam pensando os vivos (se é que uns estavam vivos e os outros estavam mortos). You so beautiful. Je ne veux pas morir san avoir compris pourquoi j’avais vécu. Um blues, René Daumal, Horacio Oliveira, but you gotta die some day, you so beautiful but. E era por isso que Gregorovius insistia em conhecer o passado da Maga, para que viesse a morrer um pouco menos dessa morte para trás, que é a ignorância das coisas arrastadas pelo tempo, para fixá-la no seu próprio tempo, you so beautiful but you gotta, para não amar um fantasma que se deixa acariciar o cabelo debaixo da luz verde, pobre Ossip, e como estava acabando mal aquela noite!, tudo tão incrivelmente tão, os sapatos de Guy Monod, but you gotta die some day, o negro Ireneo (mais tarde, quando ganhasse confiança, a Maga lhe contaria aquela história de Ledesma, o incidente dos dois caras na noite de carnaval, a saga completa de Montevidéu). De repente, com uma perfeição desapaixonada, Earl Hines propôs a primeira variação de I ain’t got nobody, e até Perico, perdido numa leitura remota, levantou a cabeça e ficou escutando. A Maga encostara a cabeça contra o braço de Gregorovius e olhava o chão, o pedaço de tapete turco, uma fibra vermelha que se perdia junto da parede, um copo vazio ao lado do pé da mesa. Queria fumar, mas não iria pedir um cigarro a Gregorovius, sem saber por que não iria pedir, e também não o pediria a Horacio, mas sabia por que não iria pedi-lo a Horacio; não queria olhá-lo nos olhos nem que ele risse outra vez, vingando-se dela, por estar colada a Gregorovius e por não se ter aproximado dele durante toda aquela noite.  Desamparada, ocorriam-lhe pensamentos sublimes, citações de poemas de que se apropriava para sentir-se no próprio coração da alcachofra, por um lado, I ain’t got nobody, and nobody cares for me, o que não era certo, já que pelo menos dois dos presentes estavam mal-humorados por causa dela e, ao mesmo tempo, recordou um verso de Perse, algo como Tu est là, mon amor, et jê n’ai lieu qu’en toi, onde a Maga se refugiava, apertando-se contra o som de lieu, de Tu est là mon amour, a suave aceitação da fatalidade, que exigia fechar os olhos e sentir o corpo como uma oferenda, algo que qualquer um podia tomar e manchar e exaltar, como Ireneo, e que a música de Hines fazia coincidir com manchas vermelhas e azuis...”

In O jogo da amarelinha, Julio Cortázar, Civilização Brasileira, RJ, 2013.

 







sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Drummond de Andrade Carlos:

  Pintura, céu, terra, ondas, pintura, natureza, céu, ondas, mar azul, praia, nuvens Vetor
Passatempo
O verso não, ou sim o verso?
Eis-me perdido no universo
do dizer, que, tímido, verso,
sabendo embora que o que lavra
só encontra meia palavra.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

POESIA E PRIMAVERA. E tempo de Drummond, comemoramos...




Anúncio da Rosa 


 Carlos Drummond de Andrade


Imenso trabalho nos custa a flor.
Por menos de oito contos vendê-la? Nunca.
Primavera não há mais doce, rosa tão meiga
onde abrirá? Não, cavalheiros, sede permeáveis.

Uma só pétala resume auroras e pontilhismos,
sugere estâncias, diz que te amam, beijai a rosa,
ela é sete flores, qual mais fragrante, todas exóticas,
todas histórias, todas catárticas, todas patéticas.

Vêde o caule,
traço indeciso.

Autor da rosa, não me revelo, sou eu, quem sou?
Deus me ajudara, mas ele é neutro, e mesmo duvido
que em outro mundo alguém se curve, filtre a paisagem,
pense uma rosa na pura ausência, no amplo vazio.

Vinde, vinde,
olhai o cálice.

Por preço tão vil mas peça, como direi, aurilavrada,
não, é cruel existir em tempo assim filaucioso,.
Injusto padecer exílio, pequenas cólicas cotidianas,
oferecer-vos alta mercância estelar e sofrer vossa irrisão.

Rosa na roda,
rosa na máquina,
apenas rósea.

Selarei, venda murcha, meu comércio incompreendido,
pois jamais virão pedir-me, eu sei, o que de melhor se compôs na noite,
e não há oito contos. Já não vejo amadores de rosa.
Ó fim do parnasiano, começo da era difícil, a burguesia apodrece.

Aproveitem. A última
rosa desfolha-se. 

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dos fragmentos literários:

 
“Apesar do sentimento de compaixão que experimentara no fim do encontro deles no Jardim de Luxemburgo, Ramon não podia modificar o fato de que D’Ardelo pertencia à espécie de pessoas que não lhe agradavam. E isso, mesmo tendo ambos uma coisa em comum: a paixão de encantar os outros; de surpreendê-los com uma reflexão engraçada; de conquistar uma mulher na presença deles. Só que Ramon não era um Narciso. Ele gostava do sucesso, mas não mesmo tempo tinha medo de despertar inveja; gostava de ser admirado, mas fugia dos admiradores. Sua discrição havia se transformado em amor pela solidão depois que sofrera algumas decepções na vida particular, sobretudo depois do ano passado, quando teve que se juntar ao exército funesto dos aposentados; as opiniões não conformistas, que outrora o rejuvenesciam, agora o tornavam, apesar de sua aparência enganosa, um personagem anacrônico, fora de nosso tempo, portanto, velho.”
 
in A festa da insignificância, Milan Kundera, Companhia das Letras,  SP, 2014.