segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dos fragmentos literários:

 
“Apesar do sentimento de compaixão que experimentara no fim do encontro deles no Jardim de Luxemburgo, Ramon não podia modificar o fato de que D’Ardelo pertencia à espécie de pessoas que não lhe agradavam. E isso, mesmo tendo ambos uma coisa em comum: a paixão de encantar os outros; de surpreendê-los com uma reflexão engraçada; de conquistar uma mulher na presença deles. Só que Ramon não era um Narciso. Ele gostava do sucesso, mas não mesmo tempo tinha medo de despertar inveja; gostava de ser admirado, mas fugia dos admiradores. Sua discrição havia se transformado em amor pela solidão depois que sofrera algumas decepções na vida particular, sobretudo depois do ano passado, quando teve que se juntar ao exército funesto dos aposentados; as opiniões não conformistas, que outrora o rejuvenesciam, agora o tornavam, apesar de sua aparência enganosa, um personagem anacrônico, fora de nosso tempo, portanto, velho.”
 
in A festa da insignificância, Milan Kundera, Companhia das Letras,  SP, 2014.

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