terça-feira, 9 de setembro de 2014

Federico Garcia Lorca e minha janela:



NOTURNOS DA JANELA
1
Alta vai a lua,
Baixo corre o vento.
(minhas longas olhadas
Exploram o céu.)
Lua sobre a água.
Lua sob o vento.
(minhas curtas olhadas
exploram o chão.)
As vozes de duas meninas
Vinham. Sem esforço,
Da lua da água
Fui à do céu.
2.
Um braço da noite
Entra por minha janela.
Um grande braço moreno
Com pulseiras de água.
Sobre um cristal azul
Jogava ao rio a minha alma.
Os instantes feridos
Pelo relógio passavam.


3.
Assomo a cabeça
À minha janela, e vejo
Como quer cortá-la
A faca do vento.
Nesta guilhotina
Invisível, eu pus
A cabeça sem olhos
De todos os meus desejos.
E um cheiro de limão
Encheu o instante imenso,
Enquanto se convertia
Em flor de gaze o vento.

4.
Na lagoa morreu hoje
Uma menina de água.
Está fora da lagoa,
No solo amortalhada.
Da cabeça às coxas
Um peixe a cruza, chamando-a.
O vento lhe diz ‘menina’,
Mas não pode despertá-la.
A lagoa tem solta
A sua cabeleira de algas
e ao ar suas grises tetas
Estremecidas de rãs.
Deus te salve. Rezaremos
Para Nossa Senhora da Água
Pela menina da lagoa
Morta sob as maçãs.
Eu logo porei a seu lado
Duas pequenas cabaças
Para que se mantenha à tona,
Ai!, no mar salgado.


 




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