terça-feira, 16 de setembro de 2014

RELEITURAS FUNDAMENTAIS:

LIVRO DE SETEMBRO:

“Como poderia eu desconfiar de que aquilo que parecia falso era verdadeiro, um Figari com violetas ao anoitecer, com rostos lívidos, com fome e brigas nos recantos. Mais tarde, acreditei naquilo que você me contou; mais tarde tive razões para isso, pois houve Mm. Léonie, que, olhando a mão que dormira com seus seios, Maga, me repetiu quase as mesmas palavras que você tinha dito. ‘Ela sofre em alguma parte. Sempre tem sofrido. É muito alegre, adora o amarelo, o seu pássaro favorito é o melro, a sua hora é a noite, a sua ponte é o Pont des Arts’. (uma barca cor de vinho, Maga, e por que razão não teríamos ido nessa barca quando ainda era tempo?)

File:Pedro Figari - El beso - Google Art Project.jpg 
(Pedro Figari, El Beso)

"A Maga encostou-se ainda mais nele. 'Agora, ela vai dizer uma das suas burrices', pensou Oliveira. 'Precisa primeiro esfregar-se, decidir-se epidermicamente'. Sentiu uma espécie de ternura rancorosa, algo tão contraditório que devia ser a própria expressão da verdade. 'Parece que seria uma boa ideia inventar a bofetada doce, o pontapé de abelhas. Todavia, neste mundo, as sínteses últimas ainda estão por ser descobertas. Perico tem razão, o grande Logos está de sentinela. É pena, seria necessário criar o amoricídio, por exemplo, a verdadeira luz negra, a antimatéria que tanto estimula Gregorovius a pensar." 

 
(Julio Cortázar nasceu na Argentina em 26 de agosto de 1914)

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