segunda-feira, 1 de setembro de 2014

RELEITURAS:



 Julio Cortazar
INSTRUÇÕES PARA DAR CORDA NO RELÓGIO



Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, pegue com dois dedos o pino da corda, puxe-o suavemente. Agora se abre outro prazo, as árvores soltam suas folhas, os barcos correm regata, o tempo como um leque vai se enchendo de si mesmo e dele brotam o ar, as brisas da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Que mais que, que mais quer? Amarre-o depressa a seu pulso, deixe bater em liberdade, imite-o anelante. O medo enferruja as âncoras, cada coisa que pode ser alcançada e foi esquecida começa a corroer as veias do relógio, gangrenando o frio sangue de seus pequenos rubis. E  lá no fundo está a morte se não corremos, e chegamos antes e compreendemos que já tem importância.


In Histórias de cronópios e de famas, Julio Cortázar, Civilização Brasileira, RJ, 1973.


Ai de mim! Não há relógio, tampouco corda. O prazo sumiu no infinito despedaçamento do tempo. Não têm folhas as árvores, os barcos naufragaram, os ventos cessaram. A mulher, o homem e o perfume são memórias com fome.

Quero a corda. Quero o medo da morte. 

Magda Maria Campos Pinto 

(Salvador Dali)



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