terça-feira, 18 de novembro de 2014

MÁRIO QUINTANA PARA CAROLINA:



 
PROMESSAS MATRIMONIAIS – MÁRIO QUINTANA

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre: “Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?”
Acho simplista e um pouco fora da realidade. Dou aqui novas sugestões de sermões.
Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?
Promete saber ser amigo (a) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou uma pessoa menos romântica?
 Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?
Promete sentir prazer de estar ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e, portanto, a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?
Promete se deixar a conhecer?
Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará  a rotina como desculpa para sua falta de humor?
Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?
Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?
Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?
Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?
Sendo assim, declaro-os muito mais marido e mulher: declaro-os maduros.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A hora (não se recorda?) era demasiado certa e humana.

 
 
 
(...) A sua sensibilidade dói-me.  Por certo que outrora nos encontramos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirados os brinquedos, porque nós teimávamos que aos soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andamos longas horas pela quinta. Como tinham nos tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade – que paga de seda para os nossos sacrifícios? – os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as brincadeiras que lhe fazem, porque sabem que são mostras de afeição. Foram belas estas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter estas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel de seda da recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este – o terem-nos embrulhado nossos brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exatamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonhos, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos... éramos duma artificialidade mais divina... (pag. 272)


In Fernando Pessoa, Toda Prosa, Editora José Aguilar, RJ, 1974. 

 

LEMBRETE:

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

ESTUDANDO OS PRIMÓRDIOS DO LIVRO: ORÍGENES DE ALEXANDRIA

 
4 ªPARTE:



A moral consiste essencialmente no retorno dos espíritos a Deus que é o sumo bem, e o fim de todas as coisas consiste em chegar a suma medida do possível, semelhantes a Deus. A alma conserva uma lembrança de seu estado primitivo, que não se apaga inteiramente com sua união com o corpo (doutrina da reminiscência). Este é o princípio da libertação, pois mesmo encerrada em seu corpo material, conserva sua liberdade e pode esforçar-se para se libertar da carga do corpo a fim de retornar ao estado que lhe corresponde. A capacidade de escolha é um fato que cada um experimenta em si mesmo e que distingue o homem de todos os demais seres corpóreos. Para retornar a Deus há vários caminhos, naturais e sobrenaturais, todos convergindo ao mesmo termo. Um é o conhecimento, em que, por procedimento dialético, a alma se eleva das realidades sensíveis até as inteligíveis. Outro é o da autocontemplação da alma. A alma é um espírito criado à semelhança de Deus, que conserva uma imagem da divindade e contemplando-se, encontra um meio de conhecer a Deus. A isto se deve unir um esforço de ascetismo para purificar a alma de seu contato com as coisas terrenas. Há ainda outro meio, sobrenatural, a graça de Deus, merecida pela redenção de Jesus.
Orígenes deixa-se arrastar pelo otimismo: a salvação de Cristo é universal. Deus criará sucessivamente mundos. A história se repetirá até que prevaleça o bem e o mal seja totalmente eliminado. Todas as almas retornarão à sua origem, uma vez terminada a purificação, cuja ocasião é proporcionada por Deus mediante a multiplicação dos mundos. Deste modo a ordem ficará restabelecida e Deus será tudo em todos...

(transcrito da tradução da Prof. Léa Ferreira Laterza do livro ‘História de la Filosofia’, Fraile G. para o curso de Filosofia Medieval, em 1984).

Apocastástase: a recapitulação, o fato de que ‘o fim seja sempre como o princípio’. Volta de tudo a Deus, razão das grandes polêmicas e causa da condenação de Orígenes.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

AVE, MANOEL DE BARROS! para sempre cantor!

CULT – A exemplo de Memórias Inventadas III (2007), Menino do Mato (2010) remonta ao tema da infância. Após muitas décadas dedicadas à poesia, suas obras mais recentes simbolizam o fechamento de um ciclo que retorna ao primitivo?

Manoel de Barros –
Acho que não retorno ao primitivismo. Por antes acho que continuo primitivo, vez que meu caminho seria para encostar na semente da palavra, ou seja: o início do canto. Porque o ser humano começa a se expressar pelo canto.


CULT – Como o poeta Manoel de Barros gostaria de ser lembrado?
Manoel –
Gostaria de ser lembrado como um ser abençoado pela inocência. E que tentou mudar a feição da poesia.



Obras publicadas:
1942 — Face imóvel
1956 — Poesias
1960 — Compêndio para uso dos pássaros
1966 — Gramática expositiva do chão
1974 — Matéria de poesia
1980 — Arranjos para assobio
1985 — Livro de pré-coisas
1989 — O guardador das águas
1990 — Gramática expositiva do chão: Poesia quase toda
1993 — Concerto a céu aberto para solos de aves
1993 — O livro das ignorãças
1996 — Livro sobre nada
1996 — Das Buch der Unwissenheiten - Edição da revista alemã Akzente
1998 — Retrato do artista quando coisa
2000 — Ensaios fotográficos
2000 — Exercícios de ser criança
2000 — Encantador de palavras - Edição portuguesa
2001 — O fazedor de amanhecer
2001 — Tratado geral das grandezas do ínfimo
2001 — Águas
2003 — Para encontrar o azul eu uso pássaros
2003 — Cantigas para um passarinho à toa
2003 — Les paroles sans limite - Edição francesa
2003 — Todo lo que no invento es falso - Antologia na Espanha
2004 — Poemas Rupestres
2005 — Riba del dessemblat. Antologia poètica — Edição catalã (2005, Lleonard Muntaner, Editor)
2005 — Memórias inventadas I
2006 — Memórias inventadas II
2007 — Memórias inventadas III
2010 — Menino do Mato
2010 — Poesia Completa
2011 — Escritos em verbal de ave
2013 — Portas de Pedro Viana 


 

Estudando o livro:



 
 (Albrecht Dürer, São Jerônimo em seu gabinete, 1514)

 DAS EPÍSTOLAS:

O início e o fim das cartas oferecem indicações, tanto na Antiguidade quanto hoje, sinais que permitem precisar o estado de espírito do destinatário. Prevalecem as longas saudações e elogios. Com Jerônimo é muito diferente. A conclusão de Dom Paulo é que as cópias existentes foram tiradas de algum exemplar guardado por Jerônimo, onde seria possível omitir as saudações, e em que o assunto e não o destinatário, agora, é o que importa.

O início de uma carta, frons epistulae, é um fragmento especial; nele em geral, refere-se ao conteúdo da carta anterior e das condições de sua remessa. Entretanto, a nota mais pessoal fica para o finis epistulae. Assuntos mais delicados (orçamentos, encomendas e empréstimos ficam para este momento. E também, exatamente, porque é mais sincero os pontos mais polêmicos surgem aí. Este ponto é especial em Jerônimo que conhece bem a força de uma palavra ardente antes do ponto final. Os finais das cartas do monge de Belém podem ser comoventes, ou mesmo espetaculares.

Embora a extensão das cartas seja muito variável (surgem expressões diversas a propósito: modus epistulae, mensura epistulae, brevitas epistalaris) a indicação aponta para uma regra literária que parece prescrever ou interditar certa extensão. Por exemplo, em sua Carta a Paulino, o monge diz que a concisão que convém ao gênero epistolar o impede de se estender mais, mas 10 páginas depois, dirá: “Bem vês que, encantado com a Sagrada Escritura, ultrapassei o modus epistulae; porém não realizei o queria”. O mesmo apontamento aparece em outras cartas. Isso parece provar que a concisão era uma qualidade de qualquer carta familiar na Antiguidade, regra reconhecida mas não realizada. O mesmo pode ser dito sobre o tempo para redação das cartas, não é possível precisar, fala-se muito em urgência, pressa, por causa da partida do correio. Não é possível entretanto dizer algo mais decisivo sobre isso; uma vez, o monge declara em sua correspondência que ‘basta uma noite, mesmo para uma carta longa’.

Àquele tempo, já se falava muito em Coletâneas de cartas; eram relidas vez ou outra, e Jerônimo se refere a algumas, apresentando-as como livros.  - pag. 93. – todas são tratados bem extensos dedicados a amigos, ou escritos a pedido destes. Apesar disso, ele não se refere às próprias cartas como livros; parece hesitar; diz que ‘uma cartinha não pode tratar de grandes questões’, e que ‘os argumentos têm nos tratados ressonância diversa da que têm nas cartas’. E assim, diante da extensão de alguns trabalhos ele troca a palavras epistula para libellus, como tratado sobre a Vida de santo Hilário. Os antigos tinham apreço às nuanças do estilo, e buscavam nas cartas um sabor especial que não se atribuía aos ‘simples’ tratados didáticos. (grifo meu)

Cartas fictícias: não datam da modernidade, mas Jerônimo já se debateu com a questão. Para marcar diferenças entre dois textos gregos, por exemplo, para polemizar, para empreender correções ou por ‘outras causas menos conhecidas’, parece a Dom Paulo que é ‘suficiente assinalar um emprego eventual de cartas fictícias por parte de Jerônimo’. E entende que é necessário reiterar que o monge era um mestre de técnica perfeita quanto à correspondência.

SEGUNDO:


A técnica do livro segundo São Jerônimo, Dom Paulo Evaristo Arns, CosacNaify, SP, 2007.