segunda-feira, 17 de novembro de 2014

A hora (não se recorda?) era demasiado certa e humana.

 
 
 
(...) A sua sensibilidade dói-me.  Por certo que outrora nos encontramos e entre sombras de alamedas dissemos um ao outro em segredo nosso comum horror à Realidade. Lembra-se? Tinham-nos tirados os brinquedos, porque nós teimávamos que aos soldados de chumbo e os barcos de latão tinham uma realidade mais preciosa e esplêndida que os soldados-gente e os barcos reais. Nós andamos longas horas pela quinta. Como tinham nos tirado as coisas onde púnhamos os nossos sonhos, pusemo-nos a falar delas para as ficarmos tendo outra vez. E assim tornaram a nós, em sua plena e esplêndida realidade – que paga de seda para os nossos sacrifícios? – os soldados de chumbo e os barcos de latão; e através das nossas almas continuaram sendo, para que nós brincássemos com eles. A hora (não se recorda?) era demasiado certa e humana. As flores tinham a sua cor e seu perfume de soslaio para a nossa atenção. O espaço todo estava levemente inclinado, como se Deus, por uma astúcia de brincadeira, o tivesse levantado do lado das almas; e nós sofríamos a instabilidade do jogo divino como crianças que apreciam as brincadeiras que lhe fazem, porque sabem que são mostras de afeição. Foram belas estas horas que vivemos juntos. Nunca tornaremos a ter estas horas, nem esse jardim, nem os nossos soldados e os nossos barcos. Ficou tudo embrulhado no papel de seda da recordação de tudo aquilo. Os soldados, pobres deles, furam quase o papel com as espingardas eternamente ao ombro. As proas dos barcos estão sempre para romper o invólucro. E sem dúvida que todo o sentido do nosso exílio é este – o terem-nos embrulhado nossos brinquedos de antes da Vida, terem-nos posto na prateleira que está exatamente fora do nosso gesto e do nosso jeito. Haverá uma justiça para as crianças que nós somos? Ser-nos-ão restituídos por mãos que cheguem aonde não chegamos os nossos companheiros de sonhos, os soldados e os barcos? Sim, e mesmo nós próprios, porque nós não éramos isto que somos... éramos duma artificialidade mais divina... (pag. 272)


In Fernando Pessoa, Toda Prosa, Editora José Aguilar, RJ, 1974. 

 

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