sábado, 8 de novembro de 2014

Da Edição: a técnica do livro



 
(São Jerônimo, Ticiano, 1542)

De cartas:

(...) Jerônimo está sempre cheio de zelo para com os deveres da amizade. Se fica no ‘segundo lugar’, o da resposta, é porque não sabe como ir até o amigo. A cada instante, sua vida se consome na correspondência que atravessa o mar.

Ficar presente por meio da carta, falar com aqueles que se ama e ouvi-los, eis aí a primeira finalidade qualquer correspondência. Ficar presente é pôr em comum os desejos, comentar os fatos em amável conversação. Mesmo as explicações doutrinais, as cartas-tratado, deveriam servir ao colóquio íntimo, e constituir o sal de agradável refeição. Um banquete cria a atmosfera de uma palestra saborosa, e sempre constitui um fator de intimidade; portanto, Jerônimo não hesita em buscar imagens relacionadas com a mesa: as cartas não são agradáveis, se não tiverem também um gosto de doce, um buquê de bom vinho.

O encanto de tal correspondência escapa um pouco a nossos sentimentos modernos: ela cria e estreita a amizade entre pessoas que só se conhecem por meio dela. Vejamos o caso mais célebre: a amizade dos dois maiores escritores eclesiásticos latinos, Jerônimo e Agostinho, que nunca se viram nem se conheceram senão por cartas.

Jerônimo lembra homens célebres, como Cícero, Platão, Diógenes, que, outrora, puderam dar consolo com seus livros e cartas. O ideal cristão e monástico fará desta atividade uma espécie de apostolado ao qual Jerônimo consagra todas as forças. Amigos e admiradores não se cansam de recorrer a tão fecundo talento. Pedidos e favores ameaçam prejudicar o primeiro objetivo da correspondência.

Ainda mais estranho para nosso gosto moderno é o interesse de propaganda que se infiltra na maioria das cartas, com a forma de humildes desculpas, de ataques fulminantes ou de confidências amigas. Todos os prefácios, que, a rigor, podem ser considerados como cartas, apresentam exemplos típicos. Os louvores a certas pessoas estão, muitas vezes, ligados a esta mesma preocupação publicitária. Tudo o que a eles se opõe ou tenta preservar sua independência é suspeito de astúcias, de inimizade. No entanto, a sensibilidade quase doentia de Jerônimo encontrou assim um meio de promover as almas de todos os tempos.

A técnica do livro segundo São Jerônimo, Dom Paulo Evaristo Arns, CosacNaify, SP, 2007.

 

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