quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Estudando o livro:



 
 (Albrecht Dürer, São Jerônimo em seu gabinete, 1514)

 DAS EPÍSTOLAS:

O início e o fim das cartas oferecem indicações, tanto na Antiguidade quanto hoje, sinais que permitem precisar o estado de espírito do destinatário. Prevalecem as longas saudações e elogios. Com Jerônimo é muito diferente. A conclusão de Dom Paulo é que as cópias existentes foram tiradas de algum exemplar guardado por Jerônimo, onde seria possível omitir as saudações, e em que o assunto e não o destinatário, agora, é o que importa.

O início de uma carta, frons epistulae, é um fragmento especial; nele em geral, refere-se ao conteúdo da carta anterior e das condições de sua remessa. Entretanto, a nota mais pessoal fica para o finis epistulae. Assuntos mais delicados (orçamentos, encomendas e empréstimos ficam para este momento. E também, exatamente, porque é mais sincero os pontos mais polêmicos surgem aí. Este ponto é especial em Jerônimo que conhece bem a força de uma palavra ardente antes do ponto final. Os finais das cartas do monge de Belém podem ser comoventes, ou mesmo espetaculares.

Embora a extensão das cartas seja muito variável (surgem expressões diversas a propósito: modus epistulae, mensura epistulae, brevitas epistalaris) a indicação aponta para uma regra literária que parece prescrever ou interditar certa extensão. Por exemplo, em sua Carta a Paulino, o monge diz que a concisão que convém ao gênero epistolar o impede de se estender mais, mas 10 páginas depois, dirá: “Bem vês que, encantado com a Sagrada Escritura, ultrapassei o modus epistulae; porém não realizei o queria”. O mesmo apontamento aparece em outras cartas. Isso parece provar que a concisão era uma qualidade de qualquer carta familiar na Antiguidade, regra reconhecida mas não realizada. O mesmo pode ser dito sobre o tempo para redação das cartas, não é possível precisar, fala-se muito em urgência, pressa, por causa da partida do correio. Não é possível entretanto dizer algo mais decisivo sobre isso; uma vez, o monge declara em sua correspondência que ‘basta uma noite, mesmo para uma carta longa’.

Àquele tempo, já se falava muito em Coletâneas de cartas; eram relidas vez ou outra, e Jerônimo se refere a algumas, apresentando-as como livros.  - pag. 93. – todas são tratados bem extensos dedicados a amigos, ou escritos a pedido destes. Apesar disso, ele não se refere às próprias cartas como livros; parece hesitar; diz que ‘uma cartinha não pode tratar de grandes questões’, e que ‘os argumentos têm nos tratados ressonância diversa da que têm nas cartas’. E assim, diante da extensão de alguns trabalhos ele troca a palavras epistula para libellus, como tratado sobre a Vida de santo Hilário. Os antigos tinham apreço às nuanças do estilo, e buscavam nas cartas um sabor especial que não se atribuía aos ‘simples’ tratados didáticos. (grifo meu)

Cartas fictícias: não datam da modernidade, mas Jerônimo já se debateu com a questão. Para marcar diferenças entre dois textos gregos, por exemplo, para polemizar, para empreender correções ou por ‘outras causas menos conhecidas’, parece a Dom Paulo que é ‘suficiente assinalar um emprego eventual de cartas fictícias por parte de Jerônimo’. E entende que é necessário reiterar que o monge era um mestre de técnica perfeita quanto à correspondência.

SEGUNDO:


A técnica do livro segundo São Jerônimo, Dom Paulo Evaristo Arns, CosacNaify, SP, 2007.




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