terça-feira, 11 de novembro de 2014

ESTUDANDO OS PRIMÓRDIOS DO LIVRO: ORÍGENES DE ALEXANDRIA



Estudou e utilizou a filosofia grega, considerando-a auxiliar na conquista do conhecimento, pois não há nada na filosofia que não esteja contaminado. Para ele a fonte excelente do saber, à qual consagrou sua existência, é a Sagrada Escritura. A filosofia é apenas um instrumento de trabalho; em seu método estão elementos do platonismo e estoicismo. Começava pela dialética, para acostumar seus discípulos na prática do raciocínio; em seguida passava à Física, explicando e classificando cada um dos seres e analisando os primeiros elementos. Junto com a Física estudava-se geometria e astronomia, ‘para elevar-se às sublimidades’. Em terceiro lugar, estudava-se Ética, para se formar o caráter; e nisto Orígenes não só falava com palavras mas, sobretudo,  confirmava sua doutrina com obras. Depois da filosofia, examinava detidamente frases e opiniões dos poetas e filósofos antigos com um critério amplo. Só depois dessa preparação enciclopédica, entrava na explicação da Sagrada Escritura, que, para Orígenes, constituía a coroação de todo o edifício do saber.

O autor é um dos principais veículos de incorporação das teses platônicas ao pensamento cristão. O seu esquema é dominado pela fórmula estóica. Há um mundo duplo, ou uma dupla série de realidades, umas visíveis e outras invisíveis e inteligíveis. É necessário começar pelas coisas sensíveis, mas não se deter e passar às inteligíveis. Bebendo no platonismo, adota a divisão tripartite do homem, corpo, alma e espírito, aos quais correspondem três graus de conhecimento, que são a fé, a gnosis e a sabedoria, ou a contemplação. A sabedoria divina, que é distinta da fé, é o primeiro dos que se chamam carismas de Deus. Depois dela vem o segundo, chamado gnosis e os que o possuem tem um conhecimento exato dessas coisas. O terceiro é a fé, pois é necessário que inclusive os mais simples se salvem, contanto que sejam piedosos no possível.

Na Sagrada Escritura há 3 sentidos: um somático ou literal; outro, o psíquico ou moral e outro, o penumático ou espiritual. Aos simples, lhes basta com a fé, o sentido óbvio, histórico ou literal. Outros, mais perfeitos, alcançam a gnosis, penetrando em seu sentido com a ajuda da alegoria. Mas o grau mai perfeito é o dos que alcançam o sentido espiritual, chegando à contemplação, que é uma antecipação da futura bem-aventurança. A gnosis perfeita só pode ser alcançada depois a morte. A contraposição dos dois mundos, visível e invisível, leva Orígenes a imaginar uma dupla ordem de sentidos para conhecê-los. Há uns sentidos materiais e outros espirituais que são os que percebem as realidades divinas. Somente os perfeitos são capazes de exercitar estes sentidos espirituais. Os fiéis comuns os têm como que atrofiados. Seu objeto são os bens superiores que estão acima do homem, o espiritual, o que é melhor que os corpos.

Orígenes foi antes de tudo um exegeta; estudou hebreu para ler textos no original; no Hexaplas faz um estudo comparado de versões diversas da Sagrada Escritura. Ilustrou o texto com escólios, breves notas sobre gramática, cronologia, geografia e história, para esclarecer difíceis pontos concretos.

Os Comentários consistiam de uma explicação mais ampla de quase todos os livros da Bíblia. Cultivou a pregação para divulgar o conteúdo dogmático, moral e místico da Escritura. Daí, procedem numerosos Homilias.

Orígenes se esforçou no sentido de uma leitura crítica da Bíblia, para encontrar o texto mais exato, mediante o confronto das versões e variantes, método este, que tinha precedentes entres os sábios alexandrinos do Museu. Quando entende que não se pode ater à letra do texto devido a sentidos antropomórficos, indignos de Deus, ele utiliza a alegoria, que também havia empregada pelos estóicos, pelos escoliastas de Homero, por Filon. Seu empenho é encontrar o sentido espiritual além da letra do texto. Orígenes foi reconhecido como homem de sobriedade e discreto equilíbrio. (CONTINUA)

 

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