quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ESTUDANDO OS PRIMÓRDIOS DO LIVRO: ORÍGENES DE ALEXANDRIA

 

3 ª PARTE:



Diz Orígenes: no cume de todos os seres, além do ser e da inteligência, existe um Deus, único, transcendente, perfeito, imutável e imaterial (contra os estóicos, que diziam que deus era corpóreo). É essencialmente bom e não pode fazer o mal nem criar alguma coisa má. Excede de tal maneira o alcance da inteligência humana, que não podemos compreendê-la, representá-la com conceitos nem expressá-la com palavras.

Deus criou o mundo do nada, mas não diretamente e sim por intermédio de Logos, que é a sabedoria de Deus. Por isso o mundo é uma imagem e uma manifestação do Logos. O mundo foi criado desde toda eternidade, porque não se pode conceber que Deus tenha permanecido ocioso, nem um momento, sem usar de sua onipotência. Pra conciliar a eternidade da criação com a temporalidade que ensina a Sagrada Escritura, supõe que Deus cria sem cessar uma série indefinida de mundos, os quais vão se destruindo periodicamente.

Sua grande preocupação é explicar a origem e a existência do mal no mundo, eximindo Deus de toda responsabilidade. Deus é a bondade por essência e não pode ter sido causa do mal. Refuta o dualismo dos gnósticos Basilidis, Valentin e Aracleon, dualismo este que Mani, seu contemporâneo, desenvolverá plenamente. Recorre, por outro lado, ao mito platônico de ER, o panfílio. O Logos é o primogênito de todas as criaturas. É o criador do mundo, e produz uma série de Logos, ou de criaturas racionais que são os espíritos ou almas. Todos os espíritos são criados pelo Logos iguais e livres, podendo cada um eleger seu próprio destino. Uns elegeram a Deus e aderiram a ele. Outros se afastaram de Deus com maior ou menor intensidade, e foram unidos a corpos materiais, mais ou menos pesados ou sutis, conforme o grau de seu afastamento. Por isso, todas as almas têm matéria. Cada espírito elege livremente sua própria sorte e, portanto, o mal não é imputável à bondade absoluta de Deus. Daí sua insistência em afirmar a liberdade dos espíritos e seu poder de eleição, cujo abuso lhe subministra uma norma para estabelecer a gradação hierárquica entre eles.

Posto que Deus é a causa de todos os seres criados e não há Nele nem variedade, nem mudança, nem impotência, criou todas as criaturas racionais, iguais e semelhantes. Porque não havia nenhuma razão para fazê-las desiguais e diversas. Mas, como as criaturas racionais foram dotadas de livre arbítrio, esta liberdade levou a cada uma delas, ou a progredir, imitando a Deus, ou a decair, por negligência. (De Principiis)

Assim a criação se reveste de um sentido purificatório em função do pecado, enquanto Deus, criando novos mundo sucessivos, oferece ocasião a todos os espíritos para que possam purificar-se e retornar a Ele. O pecado é, pois, o critério que serve a Orígenes para determinar a hierarquia entre os espíritos. O grau supremo dos espíritos é o dos anjos. Os mais elevados estão mais perto de Deus e permanecem unidos a Ele.

Deus criou a matéria do nada, portanto, ela não é má, mas essencialmente boa; embora para as almas não seja um bem estarem encerradas em um corpo material e devam esforçar-se para dele se libertarem. Orígenes define a alma como uma substância dotada de sensibilidade, fantasia e apetite. Não tem ideias claras sobre sua origem, considerando igualmente admissíveis a introdução extrínseca e a transmissão de pais a filhos por geração. São Jerônimo afirma ter ele admitido a transmigração das almas à maneira dos pitagóricos e platônicos. Esta afirmação não carece de fundamento, dado seu conceito da purificação através da sucessão de novos mundos. Em Orígenes aparece claramente o hilemorfismo (todos os seres resultam de dois elementos distintos e complementares: a matéria, indeterminada e comum a todos, e a forma, determinante e organizadora da matéria) universal que tanto se torna tão popular na Idade Média. Com exceção de Deus, absolutamente incorpóreo, todos os espíritos estão unidos a corpos materiais, mais ou menos sutis, conforme seu grau de afastamento do primeiro princípio.

Nenhum comentário:

Postar um comentário