segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

NOÇÕES BÁSICAS 1: à procura

French philosopher Jacques Derrida (Photograph: JOEL ROBINE/Getty). In Part 2 of  


“Apenas aquele que perdeu uma morada, que fez a experiência da ‘desolação’, da perda de todo pertencimento, pode oferecer a hospitalidade. Essa hospitalidade sem reivindicações é o sentido da hospitalidade que não faz qualquer referência à soberania: ‘para que uma tal experiência [da hospitalidade], que se deixa atravessar por aquilo que chega e por quem chega, por aquilo que vem e por quem chega, do outro por vir, uma certa renúncia incondicional à soberania é solicitada a priori.’  Hospitalidade radical, absoluta, é, simultaneamente, inviável e necessária, permite ao outro ser outro, porque acolhe o apelo daquele que está ‘sem mundo’, aquele que não fala nossa língua. Dever ser recebido, não na lógica da razão de Estado e dos direito humanos universais, não por ser um homem como nós, mas porque ele traz consigo aquilo que nele não se reduz ao gênero e ao cálculo do necessário, tampouco à lógica da doação e da gratidão: ‘o convite, o acolhimento, o asilo, o alojamento passam [...] pelo dirigir-se ao outro’. Mas, ‘ o que sempre está à espreita é o dilema entre a hospitalidade incondicional que vai além do direito, do dever e mesmo da política, por um lado e, por outro, a hospitalidade circunscrita pelo direito e pelo dever’.
 
Dhanbad, Bihar State, India, 1989

 (Sebastião Salgado, Migrations,
Dhanbad, Bihar State, India, 1989)

A hospitalidade não pede ao outro traduzir-se em nossas tradições e nossa língua. Assim Derrida pode então dizer ‘eu só tenho uma língua e ela não é a minha’, e ter iniciado seu discurso em Frankfurt com as palavras: ‘eu peço desculpas, estou prestes a saudá-los em minha língua. A língua será de resto meu tema: a língua do outro, a língua do hóspede, a língua do estrangeiro, até mesmo do imigrante, o emigrado ou do exilado’. Nascido na Argélia, na periferia do Império Francês, Derrida, judeu, perde, na frança ocupada pelos nazistas na Segunda Guerra, a cidadania francesa. Na condição de estrangeiro sem pátria, Derrida se vê privado, assim, da língua que não lhe pertence mais. Ao tê-la como língua estrangeira, pôde dizer amá-la e conhecê-la, pois só se conhece a própria língua quando a recebemos como língua estrangeira. Discursando em francês, na língua em que  encontrou hospitalidade, nessa língua do Outro que é seu ethos, Derrida reconhece um ‘dom sem restituição, sem apropriação e sem jurisdição’. Ética hiperbólica, para além do ‘para além’, para além da jurisdição e do direito, é a política da amizade.”

Derrida e a língua do outro. A filosofia é a ciência primeira. Olgária Matos, in Revista Cult, nº 195, outubro de 2014, Dossiê Jacques Derrida.

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