terça-feira, 10 de março de 2015

JOSÉ NARCISO BEDRAN: um artista, uma descoberta, uma saudade.


SINO
Remate da abóbada celeste,
O sino soletra setas nos ouvidos.
Taça esvaziada, vinho tomado,
Espreita-nos como fechada questão,
Emborcado para o infinito.

Encerra, senão, o poder da criação.
E, como bicho adormecido,
Sigilo calado na tocaia do som,
É armadilha desarmada:
já capturou o chamado que velava.


AMOR
O amor existe.
No íntimo das canções.
No dorso das paineiras.


ABUTRE
Meu passado foi povoado
Por criaturas que não tive.
Alimento-me agora de perdas,
Como os abutres.

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CÃO
 De rumo perdi o significado,
meus caracteres não individualizo.
Os anos descascaram um muro encardido.
Viver tornou-se menos que invejar
A trajetória obstinada dos cães de rua.


MEMÓRIA
Vida em branco,
Em transparentes nuvens,
E que ninguém, ninguém
Recite em vão 
as mentiras de minhas glórias ou de meus fracassos.

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