quinta-feira, 30 de abril de 2015

Estudo 2:



  

CAPÍTULO XV – TESTEMUNHAS CONTRA A INTOLERÂNCIA
É uma impiedade tirar, em matéria de religião, a liberdade aos homens, impedir que façam sua escolha por uma divindade; nenhum homem, nenhum deus gostaria de um serviço forçado. (Tertuliano, Apologeticus, cap. XXV).
Se alguém usasse de violência para a defesa da fé, os bispos se oporiam a isso (Santo Hilário).
A religião forçada não é mais religião; é necessário persuadir e não forçar. A religião não é imposta (Lactâncio, livro III).
É uma execrável heresia querer atrair pela força, pelos golpes, pelas prisões aqueles que não conseguimos convencer pela razão (Santo Atanásio, livro I).
Nada é mais contrário à religião que a imposição (São Justino, mártir, livro V).
Haveríamos de perseguir aqueles que Deus tolera? Diz Santo Agostinho, antes que sua divergência com os donatistas o tornasse mais rigoroso.
Que não seja cometida qualquer violência contra os judeus (Quarto Concílio de Toledo, cânon 56.°)
Aconselhem e não forcem (Carta de São Bernardo).
Não pretendemos destruir os erros pela violência (Discurso do clero da França a Luís XIII).
Sempre desaprovamos as vias do rigor (Assembléia do clero, 11/08/1560)
Sabemos que a fé se persuade e não se impõe (Fléchier, bispo de Nîmes, carta 19)
Não se deve até mesmo usar termos insultantes (bispo Du Bellai, numa Instrução pastoral).
Lembrem-se que as doenças da alma não se curam por opressão e violência (cardeal Le Camus, Instrução pastoral de 1688).
Concedam a todos a tolerância civil (Fénelon, arcebispo de Cambrai, ao duque de Borgonha).
A exação forçada de uma religião é uma prova evidente que o espírito que a conduz é um espírito inimigo da verdade (Dirois, da Sorbonne, livro VI, IV).
A violência pode fazer hipócritas; não se persuade o que se faz reboar por parte as ameaças (Tillemont, Histoire ecclésiastique, tomo VI)
Pareceu-nos conforme à equidade e à reta razão seguir as pegadas da Igreja antiga que não usou de violência para estabelecer e difundir a religião (Advertência do parlamento de Paris a Henrique II).
A experiência nos ensina que a violência se presta mais a irritar do que a curar um que tem sua raiz na razão, etc. (De Thou, Epístola dedicatória a Henrique IV).
Não se inspira a fé a golpes de espada (Cerisiers, Sur les règnes de Henri IV ET de Louis XIII)
É um zelo bárbaro pretender semear a religião nos corações como se a persuasão pudesse ser o efeito da imposição (Boulainvilliers, État de France).
Ocorre com a religião como com o amor: a ordem nada pode, a imposição menos ainda; nada mais independente do que amar e crer (Amelot de La Houssaie, sobre as Lettres Du cardinal d’Ossat).
Se o céu os amou tanto para fazê-los ver a verdade, propiciou a vocês uma grande graça; mas é normal que os filhos que têm a herança de seu pai odeiem aqueles que não a tiveram? (Esprit dês Lois, livro XXV).
Poder-se-ia compor um livro imenso somente com passagens similares. Nossas histórias, nossos discursos, nossos sermões, nossas obras de moral, nossos catecismos, todos respiram, todos ensinam hoje esse dever sagrado da indulgência. Por que fatalidade, por que inconsequência haveríamos de desmentir na prática uma teoria que anunciamos todos os dias: quando nossas ações desmentem nossa moral é que achamos que há alguma vantagem para nós em fazer o contrário daquilo que ensinamos, mas certamente não há nenhuma vantagem em perseguir aqueles que não são de nosso parecer e levá-los desse modo a nos odiarem. Há, portanto, uma vez mais, algo de absurdo na intolerância. Mas, dirá alguém, aqueles que têm interesse em perturbar as consciências não têm nada de absurdo. É a eles que se dirige o capítulo seguinte.”

In Tratado sobre a Tolerância, Voltaire, Editora Escala, São Paulo, 1989.

Nenhum comentário:

Postar um comentário