sábado, 18 de abril de 2015

GALEANO 4:

Eduardo Galeano

JUANA AOS SETE ANOS

Pelo espelho vê entrar sua mãe e solta a espada, que cai com o rumor de um canhão, e dá Juana tamanho pulo que toda sua cara fica metida debaixo do chapéu de abas imensas.
- Não estou brincando  - zanga ante o riso de sua mãe. Livra se do chapéu e aparecem os bigodões de carvão. Mal navegam as perninhas de Juana nas enormes botas de couro; tropeça e cai no chão e chuta, humilhada, furiosa; a mãe não para de rir.
- Não estou brincando! - protesta Juana com agua nos olhos - Eu sou homem! Eu irei à universidade por que sou homem!
A mãe acaricia sua cabeça:
- Minha filha louca, minha bela Juana. Deveria açoitar-te por estas indecências.
Senta-se ao seu lado e docemente diz: "Mais te valia ter nascido tonta, minha pobre filha sabichona", e a acaricia enquanto Juana empapa de lágrimas a enorme capa do avô.

in Mulheres, Eduardo Galeano, L&PM, Porto Alegre, 2011

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