quarta-feira, 29 de abril de 2015

Primeiro estudo:



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“Finalmente, o fundamento sobre o qual tenciono colocar a ética será bem exíguo. Com isso, das muitas coisas que no comportamento humano são legais, equitativas e louváveis, apenas uma pequena parte dá-se como tendo surgido de puras motivações morais fundamentais, sendo a maior parte atribuída a outros motivos. Isto satisfaz menos e não é, talvez, tão brilhante para os olhos como um imperativo categórico que está sempre à disposição para que ele mesmo comande o que deve ser feito ou omitido, sem mencionar outros fundamentos materiais da moral. Só me resta lembrar o dito do Qohélet (4,6): ‘ Melhor uma mão cheia de paz do que dois punhos cheios de atribulação e vaidade’. O genuíno de bom quilate e indestrutível é sempre bem pouco em todo o conhecimento, tal como o minério que contém escondidas, numa pedra de cinquenta quilos, poucas onças de ouro. Mas se, como eu, se preferir uma posse segura a uma grande, o pouco ouro que remanesce no crisol à grande quantidade que é trazida com ele – ou se me culparem ainda por ter antes retirado do que é oferecido o fundamento da moral, quando demonstro que as ações humanas, de acordo com a lei e louváveis, frequentemente não possuem nenhum conteúdo moral e, algumas vezes, apenas uma pequena parte dele, repousando de resto sobre motivos cuja eficácia é atribuída por fim ao egoísmo do agente -, tenho a este respeito de permanecer indeciso, embora não sem preocupação, mas resignado. Pois de há muito estou de acordo com o cavaleiro Von Zimmermann, quando este diz: pense no seu coração, até a sua morte, que nada é mais raro no mundo do que um bom juiz. (Sobre a solidão, parte I, cap. 3, p. 93). Mentalmente já vejo minha exposição, para a qual toda ação reta, genuína, espontânea, todo amor pela humanidade, toda nobreza, não importa onde seja encontrada, mostra uma base tão estreita diante da dos competidores que, confiantemente, colocam um fundamento da moral tão amplo, acrescido de uma carga arbitrária, ameaçando assim todo aquele que duvida com olhares enviesados em direção à sua própria moralidade na consciência, para culpabilizá-lo. O meu fundamento apresenta-se tão pobre e deprimido como Cordélia diante do rei Lear, asseverando laconicamente sua disposição conforme o dever, em comparação com os juramentos exagerados de suas eloquentes irmãs. Por isso é que se faz preciso um cordial que um sábio ditado de caçadores oferece: ‘ Magna est vis veritates et praevalevit’ [ Grande é a força da verdade e ela prevalecerá] – o qual, no entanto, já não encoraja muito quem já viveu e agiu. Entretanto, quero ainda ousar com a verdade: pois aquilo que a mim acontece, acontecerá também a ela.”

In Sobre o Fundamento da Moral, Arthur Schopenhauer, Martins Fontes, São Paulo, 1995. 


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