quinta-feira, 14 de maio de 2015

RILKE:



“Uma vez, de manhã, aparece ali um cavalheiro; depois um segundo, quatro, dez. Todos de ferro, grandes.

Depois, mil, atrás: o exército.

Precisam separar-se.

‘Feliz regresso, senhor marquês’.

‘Que Maria vos proteja, senhor Junker’.

E não se podem separar. São, de repente, amigos, irmãos. Têm mais coisas a confiar, reciprocamente, - pois já sabem tanto um do outro! Demoram-se. E há pressa e bater de patas em redor. Então, o marquês descalça a grande luva da mão direita. Retira de dentro a pequena rosa, toma-lhe uma pétala. Como quem parte uma hóstia. ‘Isto vos protegerá. Adeus’. O de Languenau espanta-se. Fita longamente o francês. Depois, insinua a pétala sob a loriga. E ela sobe e desce sobre as ondas do seu coração. Toque de corneta. Cavalga para o exército o Junker. Sorri tristemente. Uma mulher estrangeira o protege."

In A canção de amor e de morte do Porta-Estandarte Cristóvão Rilke, tradução de Cecília Meireles, Editora Globo, RJ, 2015.

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