terça-feira, 30 de junho de 2015

11º capítulo: FIM

Aproximou-se da cabeça do homem observando-a com a mesma curiosidade e dedicação com que observava tudo na vida. Depois, molhando a toalha na água do balde, limpou a face e lavou os cabelos. Em seguida, os penteou e perfumou. Admirou; e gostou muito do próprio trabalho.

Então, colocou a cabeça sobre a bandeja e sussurrou-lhe que esperasse um pouco, precisava deixar tudo em ordem para não aborrecer a mulher.

Arrumou o lugar limpando a madeira suja de sangue, colocando ferramentas de volta nas prateleiras, varrendo o terreiro, recolhendo o lixo. Tão caprichoso quanto o homem, pensou.

Tudo ficou perfeitamente limpo e arrumado. Sussurrou para a cabeça sobre a bandeja: ‘ela vai gostar’.

Então, segurando a bandeja com elegância, caminhou e entrou em casa. Foi até o quarto da mulher e ela estava deitada, dormindo, linda como sempre, tranquila entre seus lençóis de seda.

Ele a admirou por alguns instantes e a chamou pela primeira vez: ‘ ôhhhh ôhhh mãe!’. Ao primeiro chamado, ‘ôhhh ôhhh mãe’, a mulher saltou e sentou-se como um boneco de mola.

Miguel estava de pé, ao lado da cama, oferecendo-lhe a bandeja. Ele estava sorrindo como ela nunca o vira sorrir.

Ele disse: ‘É para você’. 

Magda Maria Campos Pinto

Imagem

segunda-feira, 29 de junho de 2015

10 º capítulo:

Num começo de noite, depois de incontáveis noites, soou mais uma vez o indecifrável canto do invisível urutau. Naquele começo de noite, Miguel, de súbito, deu um salto. Havia anos, ele, em incontáveis começos de noites, ouvia atentamente o canto do pássaro. Ouviu: ‘ohhhh, ohhhh, ohh, oh... ’; ouviu: ‘ahhhh, ahhh, ahh, ah...’, e ainda ‘ouuuu,  ouuu, ouu, ou...’, e também: ‘ãããã, ããã, ãã, ã...’, e depois: ‘êêêêh, êêêh, êêh, êh...’, mas, naquele começo de noite, Miguel ouviu claramente: ‘vaiiii, vaiii, vaii,vai...’.

E tudo lhe pareceu esclarecido.  Não havia lua e as estrelas exibiam-se sem pudor.

Miguel levantou-se devagar e saiu da casa saltando pela janela. Avançou em direção ao homem que, abaixado sobre uma tábua, lixava a madeira no mesmo vai-e-vem; no mesmo ritmo do gesto sem fim.

O filho pegou um porrete que estava por ali e continuou caminhando devagar. O urutau continuava: ‘vaiiii, vaiii, vaii, vai... ’. Miguel estava tranquilo e o ar da noite aquecia seu corpo. Ele estava feliz.

Por trás, com um único golpe, acertou a cabeça do homem que desabou de bruços sobre a madeira; a cabeça se partiu num som seco e rápido. O homem tombado não se moveu mais.

O urutau calou-se. Da cabeça do marido, o sangue jorrou sobre a terra e Miguel continuou mudo observando o sangue pintando o solo em manchas negras. O silêncio recobriu a terra e tudo lhe pareceu resolvido.

Miguel moveu-se com calma observando o redor: a noite estava magnífica. A brisa era um continuado abraço amoroso. Ele caminhou passo a passo até o quarto de ferramentas, trouxe um serrote e alguns sacos vazios que aguardavam a colheita do milho. Com bastante cuidado, de mansinho, silencioso, atento para não errar o corte, separou braços e pernas, repetindo os gestos de vai-e-vem, os mesmos movimentos que por toda a vida acompanhara eternamente.

Depois guardou, separadamente, com delicado gesto: pernas num saco, braços noutro. Examinou o tronco com minuciosa atenção e separou-o da cabeça com um corte preciso. Pôs o tronco num outro saco e, sempre com delicadeza, colocou a cabeça rachada sobre a tábua: viu os olhos arregalados na face escurecida pelo sangue coagulado. Olhou para a cabeça por algum tempo e perguntou-lhe novamente por que ele havia se casado com ela.

Em seguida, balançou a própria cabeça de modo aborrecido por, mais uma vez, não receber nenhuma resposta.

Então, pegou a enxada do marido e, ali mesmo, sob o imenso jatobá que beirava o jardim interno, começou a cavar a terra escura e fofa; era uma terra macia que o ajudou a abrir um grande buraco onde colocou, cuidadosamente, um sobre o outro, os três sacos que aguardavam a colheita do milho e que agora guardavam os braços, as pernas e o tronco do homem.

Cobriu, com tranquila gentileza, o buraco e calcou a terra. Buscou uma mesa e quatro belos bancos que o homem havia construído; depois buscou um armário. Fez um bonito arranjo de móveis sobre a terra que engolira o homem.

Voltou à tábua onde estava a cabeça e outra vez a observou. Repetiu a pergunta e outra vez balançou a própria cabeça desaprovando a falta de resposta. Miguel sentia-se vivo, forte e respeitável.

Entrou em casa, foi ao banheiro, pegou uma toalha, o sabonete, um pente e o perfume que a mulher gostava. Passou pela cozinha, pegou a bandeja mais bonita e, na área de serviço, encheu um balde com água.

Começou a assobiar como o urutau: vaiiii, vaiii, vaii, vai. Miguel estava feliz.

Magda Maria Campos Pinto

Urutau-comum camuflado

domingo, 28 de junho de 2015

9º capítulo:

Uma tarde, o marido estava trabalhando com a enxada, sol a pino, preparando uma plantação de milho, quando se sentiu observado. Procurou. Não viu nada. Voltou ao trabalho, mas a sensação de presença continuou. Voltou a procurar e, depois de indizível angústia (quanto tempo?) descobriu Miguel de cócoras sobre um montículo de terra, entre as moitas de capim, a uns poucos metros. Quieto, imóvel e de olhos arregalados, ele observava cada movimento do homem.
O coração do homem disparou; primeiro de alegria, sentiu a esperança de um encontro, de companhia, de humanidade enfim, e sorriu; cumprimentou-o, convidou para trabalhar junto, disse ‘que bom que você está aqui’.
Não houve resposta nem movimento.
Triste, mas com a picada da esperança no peito, o homem voltou ao trabalho; uma toada de fé na redenção soava em seu peito. O sol começou a descer e nenhuma palavra foi dita. Os primeiros pontos de luz prateada já pintavam o céu escuro quando o homem ouviu: ‘por que você se casou com ela?’.
O desespero explodiu o peito. O homem desatinou. Quase perdeu o controle. Sentiu-se desnudo e desamparado. Observou a enxada nas mãos e pensou em atacar o filho. Conteve-se.
Reviu o passado: era escuro, era triste, não havia escolha, não se lembrava do começo e, cheio de angústia, entendeu que ainda não chegara ao fim. Sentiu uma inexplicável piedade de Miguel.
Mas, sem palavras, continuou quieto e mudo. Paralisado.
Depois, quando a noite já cobria a terra por inteiro e os pontos de luz no céu eram incontestáveis, Miguel levantou-se e voltou ao barraco. Voltou à janela e à noite.
O marido veio depois, mais triste, mais magro, mais velho. Foi para o banho. Depois, sem dar ouvidos aos protestos da mulher, saiu para a marcenaria que ficava ao ar livre, debaixo do enorme jatobá que beirava o jardim interno da casa. Começou a serrar madeira sem nenhum objetivo em mente.
A esposa seguiu-o, obstinou-se e quis conversa; ofereceu jantar, quis notícias da plantação de milho, se fez bonita e dengosa. Ele ficou mais nervoso e mandou que ela desaparecesse. Teve ganas de serrá-la ao meio. Ela saiu magoada e ofendida.
Miguel observava da janela.
Bancos, cadeiras, mesas e armários multiplicavam-se e ficavam espalhadas pelo quintal.
Miguel vivia com os olhos e a cabeça no céu. Tornara-se definitivamente sereno: uma alma pacífica e bonita como um negro céu de inverno completamente pontilhado de prata. Estava mais velho e mais magro; os cabelos, sujos e emaranhados. Uma barba negra insistia em crescer desgrenhadamente. Passava os dias deitado em seu quarto navegando entre estrelas na imensidão escura.
À noite, saía do quarto, acompanhava a lua e conversava com as estrelas.
O imperturbável rio da vida seguia seu caminho. E Miguel seguia quieto no quarto organizando e limpando os restos que recolhia pelos caminhos enquanto acompanhava os astros.

Magda Maria Campos Pinto
 

sábado, 27 de junho de 2015

8º capítulo:

O marido deixou de falar; a mulher olhava-o com um amor infinito, indizível, cruelmente não correspondido, pensava. Pedia clemência para o seu filho, afinal, era mãe. Repetia-se. E a batalha entre surdos e mudos perdurava.

E Miguel ia se apagando; mais mudo, mais sombra. Não ficava em lugar nenhum; ficava no meio do caminho, entre casa e hospital. Agora, já ninguém falava com ele e ele, se dirigia apenas às coisas inertes.

 E, agora, Miguel também engolia pedras.

Um par de vezes Miguel aproximou-se da mãe e pediu-lhe que o matasse; ela sorriu com piedade, passou-lhe a mão pela cabeça, disse que o amava e que tudo ficaria bem.

Então, ele escapava desesperado e desaparecia por muitos dias.

Um dia, voltou resmungando e trancou-se no barraco. Semanas. Sem banho sem comida.

A mulher sentiu-se em paz. Enfim, Miguel estava seguro dentro do quarto. Ela lhe levava comida e água. Às vezes, ele aceitava, outras não; às vezes, ela levava também um pouco de conversa, roupa limpa, doces; e os olhos de Miguel cintilavam por uns instantes. Alguns instantes, mas ela não via.

O marido continuava dedicado à madeira; construía móveis, brinquedos e esculturas gigantes. Dias e dias silencioso e triste, pensativo, alisando a madeira. Um mudo.

A mulher ia até ele e falava muito, contava as notícias da vizinhança e da cidade, da família e do mundo, falava de tudo, fazia planos, construía mundos e fundos e o levava para a cama. E era feliz.

Miguel começou a debruçar na janela do barraco; logo, passava as noites inteiras debruçado na janela; observava o céu; contava estrelas, e falava; parecia bem, parecia tranquilo. Distante e frio. Ele também vigiava a lua; acompanhava o movimento da bola luminosa durante toda a noite, virando a cabeça, subindo na janela.

E, escapando pela janela, acompanhava a lua atravessando o jardim, o quintal, o mundo; despedia-se da lua quando o sol se anunciava. E voltava para o barraco.

Então, ele fechava a janela, dobrava-se como um boneco dobrável sobre o leito e ficava ali, quieto, entre os seus muitos restos. Não trancava a porta do barraco, mas ninguém se atrevia. A mulher deixava-lhe um prato de comida por dia e alguma água.

Miguel vivia à noite, com a lua e as estrelas.

A mulher sentia-se tranquila; e, afinal, o que mais se poderia fazer? Já haviam tentado tudo. Miguel era irreal, impossível, incompreensível, impensável. E, ao mesmo tempo, havia muito trabalho à espera. Às vezes, a mulher se perguntava por que trabalhava tanto; e achava despropositada a pergunta; era preciso trabalhar, era preciso, claro que era.

Quando a noite chegava, Miguel levantava-se, abria a janela e voltava a observar o céu. E caminhava pela noite.

Inexplicavelmente, o marido, começou a trabalhar à noite na marcenaria; sentia-se muito bem. Não que dormisse durante o dia, pelo contrário, não ficava em casa, fugia para os arredores e trabalhava na terra. Obrigava-se à exaustão; às vezes, capinava o mesmo lugar diversas vezes e plantava o que lhe vinha à cabeça. Sentia-se bem quando sozinho com a terra. Trabalhando ao esgotamento. Dia e noite.

Algumas vezes, a mulher aparecia; bonita, cheirosa e sorridente. Trazia-lhe uma comida boa, um vinho, puxava conversa, ele respondia monossilabicamente e, vez ou outra, aceitava a comida; pedia que ela voltasse para casa, dizia que o lugar não lhe convinha, ela insistia, queria fazer-lhe companhia, ser companheira dele, ser mulher dele. Teimava e ele ficava confuso. Ela não desistia e, algumas vezes, deitaram-se ali mesmo, sobre a terra, entre árvores.

Ela ficava muito feliz, dizia que o amava e que eles eram felizes. Que jamais se separaria dele. Ele nada dizia. Ela ficava satisfeita por um algum tempo. Então, ele voltava a revolver a terra e a serrar a madeira.

Magda Maria Campos Pinto