segunda-feira, 15 de junho de 2015

10º capítulo:

Ao amanhecer, fugi. Iam levá-lo para o hospital e eu não tinha forças para impedir. Ele gostaria que eu impedisse. Ele queria, eu sabia. E eu, covarde. Não posso perdoar-me ainda.
Os dias e as noites no hospital foram uma mistura esdrúxula de amor e medo. Ele sorria, dizia ‘obrigado’ a todos e a tudo, desculpava-se por... Por quê? E tudo era cansaço, o mais escandaloso e humilhante cansaço. Algumas vezes o mundo parecia estar acabando e, então, eu segurava a mão dele entre as minhas e o tempo parava.
De repente, ele encontrava um pouco de ar, murmurava ‘obrigado’ e soltava-se de minhas mãos. Depois, se justificava, soprando sílaba por sílaba: ‘soltei sua mão porque está calor, viu?’. Parei de pensar. Parei de falar e, pela primeira vez, parei de sentir.
E chegou um dia, ou melhor, uma tarde, por volta das catorze horas, em que ele falou: ‘vou morrer hoje’, fingi não ouvir, ele fez piada: ‘estou bem treinado, passei muito tempo ensaiando a posição correta’. Não ouvi.
Ele começou a simular uma confusão mental, não sei se por piada ou piedade, pois, de fato, as pessoas tornavam-se mais tranquilas e mais quietas enquanto ele delirava. ‘Quem está delirando não está sofrendo’: era o que diziam e ele ouvia, é certo. Pois o certo é que se ele se mostrasse confuso, falando coisas estranhas – a caçada aos discos voadores, a relação do futebol com a ética dos povos, a educação e os jogos de baralho -, as pessoas calavam-se. O murmurio desagradável desaparecia e alguma serenidade reinava.  Não sei. Sei que quando seu olhar exausto se encontrava com o meu, ele dava aquela piscadela de quem está fazendo cena. Ele estava brincando com a morte? Protegendo-nos isolando-se num falso delírio? Vingando-se ao se colocar fora de alcance? Quem sabe? Saberei? Não saberei.
Magda Maria Campos Pinto

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