segunda-feira, 29 de junho de 2015

10 º capítulo:

Num começo de noite, depois de incontáveis noites, soou mais uma vez o indecifrável canto do invisível urutau. Naquele começo de noite, Miguel, de súbito, deu um salto. Havia anos, ele, em incontáveis começos de noites, ouvia atentamente o canto do pássaro. Ouviu: ‘ohhhh, ohhhh, ohh, oh... ’; ouviu: ‘ahhhh, ahhh, ahh, ah...’, e ainda ‘ouuuu,  ouuu, ouu, ou...’, e também: ‘ãããã, ããã, ãã, ã...’, e depois: ‘êêêêh, êêêh, êêh, êh...’, mas, naquele começo de noite, Miguel ouviu claramente: ‘vaiiii, vaiii, vaii,vai...’.

E tudo lhe pareceu esclarecido.  Não havia lua e as estrelas exibiam-se sem pudor.

Miguel levantou-se devagar e saiu da casa saltando pela janela. Avançou em direção ao homem que, abaixado sobre uma tábua, lixava a madeira no mesmo vai-e-vem; no mesmo ritmo do gesto sem fim.

O filho pegou um porrete que estava por ali e continuou caminhando devagar. O urutau continuava: ‘vaiiii, vaiii, vaii, vai... ’. Miguel estava tranquilo e o ar da noite aquecia seu corpo. Ele estava feliz.

Por trás, com um único golpe, acertou a cabeça do homem que desabou de bruços sobre a madeira; a cabeça se partiu num som seco e rápido. O homem tombado não se moveu mais.

O urutau calou-se. Da cabeça do marido, o sangue jorrou sobre a terra e Miguel continuou mudo observando o sangue pintando o solo em manchas negras. O silêncio recobriu a terra e tudo lhe pareceu resolvido.

Miguel moveu-se com calma observando o redor: a noite estava magnífica. A brisa era um continuado abraço amoroso. Ele caminhou passo a passo até o quarto de ferramentas, trouxe um serrote e alguns sacos vazios que aguardavam a colheita do milho. Com bastante cuidado, de mansinho, silencioso, atento para não errar o corte, separou braços e pernas, repetindo os gestos de vai-e-vem, os mesmos movimentos que por toda a vida acompanhara eternamente.

Depois guardou, separadamente, com delicado gesto: pernas num saco, braços noutro. Examinou o tronco com minuciosa atenção e separou-o da cabeça com um corte preciso. Pôs o tronco num outro saco e, sempre com delicadeza, colocou a cabeça rachada sobre a tábua: viu os olhos arregalados na face escurecida pelo sangue coagulado. Olhou para a cabeça por algum tempo e perguntou-lhe novamente por que ele havia se casado com ela.

Em seguida, balançou a própria cabeça de modo aborrecido por, mais uma vez, não receber nenhuma resposta.

Então, pegou a enxada do marido e, ali mesmo, sob o imenso jatobá que beirava o jardim interno, começou a cavar a terra escura e fofa; era uma terra macia que o ajudou a abrir um grande buraco onde colocou, cuidadosamente, um sobre o outro, os três sacos que aguardavam a colheita do milho e que agora guardavam os braços, as pernas e o tronco do homem.

Cobriu, com tranquila gentileza, o buraco e calcou a terra. Buscou uma mesa e quatro belos bancos que o homem havia construído; depois buscou um armário. Fez um bonito arranjo de móveis sobre a terra que engolira o homem.

Voltou à tábua onde estava a cabeça e outra vez a observou. Repetiu a pergunta e outra vez balançou a própria cabeça desaprovando a falta de resposta. Miguel sentia-se vivo, forte e respeitável.

Entrou em casa, foi ao banheiro, pegou uma toalha, o sabonete, um pente e o perfume que a mulher gostava. Passou pela cozinha, pegou a bandeja mais bonita e, na área de serviço, encheu um balde com água.

Começou a assobiar como o urutau: vaiiii, vaiii, vaii, vai. Miguel estava feliz.

Magda Maria Campos Pinto

Urutau-comum camuflado

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