terça-feira, 16 de junho de 2015

11º capítulo

 Então, num repente, ele arrancou os fios dos aparelhos e o oxigênio. As pessoas começaram a gemer, mas ninguém se moveu, tamanha a autoridade do gesto. Num esforço gigantesco, sentou-se na cama e murmurou que ia descer, queria ficar de pé. Eu gritei: Não! E coloquei minha mão sobre seu peito impedindo-o. Ele me olhou com... Que palavra? E sussurrou, tirando forças não posso dizer de onde, pois ele não tinha nenhum ar, não tinha pulso, não tinha músculo, não tinha nada, não tinha quê nem pra quê..., mas tinha força, tinha desejo: ‘com licença, por favor, não quero ser mal educado, eu vou ficar de pé’.
Repeti: NÃO! E lágrimas começaram a correr. Ele repetiu ‘estou dizendo que vou descer’, eu gritei novamente ‘não, por favor, eu vou lhe dar um remédio’, e empurrei-o de volta sobre os travesseiros. Fui cortada por duas flechas de fogo que seus olhos dispararam.
Não se derruba um titã impunemente, e, agora, meu choro era para sempre inconsolável. Não era choro. Não era nada. Sabia-me simplesmente condenada à sobrevivência eterna. Não posso me perdoar.
Então, recebi outro olhar amoroso. Era o perdão e a rendição. Preciso dizer melhor: ele, literalmente, declarou-se vencido e orou: ‘Ouça-me, meu Deus, estou pedindo, pode me levar, meu Deus’. Ele disse isso quando eu o derrubei sobre os travesseiros.
Eu e a sobrevivência: a dor impossível de sentir.
Dei-lhe vários sedativos, ele engoliu tudo calma e cansadamente. As pessoas desapareceram, estávamos sozinhos. Não sei se me explico, pois digo: completamente sozinhos. Ou seja, eu estava ali e ali estava ele. E outras pessoas também. Mas estávamos todos completamente sozinhos. Escapou da minha boca ‘não aguento mais’, ele ouviu, disse ‘Deus te abençoe’; eu menti: ‘não me demoro’.
E fugi mais uma vez. Ignorei o elevador, escolhi uma corrida escadaria abaixo, esperando que os andares nunca acabassem, mas acabaram e eu cheguei ao chão; eram seis horas da tarde, havia muita gente na rua, carros, uma passeata, um protesto, uma procissão, gritos, mendigos, trabalhadores, crianças, cães e buzinas.
O ruído da vida. Eu via todo esse barulho e só ouvia silêncio. Lembro-me bem: caminhei entre pessoas, vi rostos, pernas, cães e carros; vi faixas de protesto (por que sei que era protesto se não li nenhuma? Por que revejo aquelas letras com nitidez, a mesma nitidez daquela hora, e não sei – ainda não sei - quais palavras estavam ali? Entretanto, eu sei que era um protesto). Tudo acontecia como se alguém tivesse apertado a tecla ‘mudo’ do filme da vida. Caminhei por tempos, esperando sem esperança, sem ideia na cabeça, nenhum caminho a seguir, apenas caminhando...
Cheguei à minha casa e joguei-me sobre o sofá onde permaneci eternamente dobrada, encolhida, imóvel, pedra. A vida continuava muda. Tudo sólido. E assim ficou, e assim eu fiquei.

Magda Maria Campos Pinto
27-Crepuscular-Rays-Restore-Faith-22

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