quarta-feira, 17 de junho de 2015

12º capítulo: Fim

O telefone tocou. Não atendi. Levantei-me e fiz o caminho de volta para o hospital.
O mundo ainda era silêncio, mas não vi ninguém nas ruas. Nem cães nem carros. Tampouco protestos. Estava escuro e havia ar. Caminhei devagar, subi devagar as mesmas escadas e o encontrei morto. Beijei seu rosto, falei ‘eu te amo, até breve’. Por que eu falei isso? Eu te amo, até breve. Verdade, eu disse: eu te amo, até breve.
Depois disso, lembro-me apenas de estar chorando e da certeza de que eu o havia matado. Lembro-me de que continuo chorando com a certeza de que o matei.
Às vezes, ele me diz que não sei nem dirigir um carro, que nem gosto de dirigir um carro e que, portanto, é melhor desistir desta uma vida besta e entrar logo para um circo. Eu rio, mas depois ainda choro.
Ele ri, às vezes.  Diz que as mulheres inventam coisas inúteis que fazem a vida ficar boa. Eu digo que ele está copiando Cecília Meireles e ele responde que nunca foi apresentado a nenhuma Cecília. Conto-lhe que inventei homens imprescindíveis e minto que matei a minha culpa. Ele acha graça. Continua inventando piadas e eu continuo tentando aprendê-las.
Eu sempre choro. E tenho certeza de que o matei.
Olhei para o lado e vi que Théo e Luis dormiam serenamente. Enrosquei-me neles e adormeci também. Mas sonhei. Eu dizia que queria calar-me...
Magda Maria Campos Pinto
Gustav Klimt Featured Images - Flower Garden  by Gustav Klimt 
(Klimt - Flower Garden)

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