domingo, 7 de junho de 2015

2º capítulo:


E, assim, tudo ao contrário, naqueles dias em que ele estava para morrer, começou a passar-me orientações, consolo, estímulo, eu resistindo, tentando fazer com que ele se calasse: sou eu que quero ajudar, sou eu quem tem que te consolar.
E ele: Escuta, presta atenção, você vai precisar do palhaço, não tem outro jeito, você não pode ficar sozinha, escuta, procura o palhaço.
 Eu, triste, perdida, pensando na ausência dele, tentando convencer-me de que tudo aquilo era delírio, palavra louca de quem já perdeu a razão, mas sem conseguir convencer-me nem por um segundo e, agora, estou aqui ouvindo meu pai dizendo: procure a sua gente, não desista, aqui você é pessoa estranha, precisa do seu teatro, ouço meu pai insistindo, sem poder declarar-se francamente, enquanto esses dois gozam da minha cara, às palhaçadas, e eu pensando que esses dois são minhas crianças, minhas crianças, meu teatro, minhas modas, minhas invenções, e agora não...
Agora, os dois estão calados, sérios, olhando-me pelo canto dos olhos através do espelho, e eu, eu entro na brincadeira, sorrio o sorriso velhaco que só meu pai sabia sorrir, e reajo. Enceno uma ira incontrolável e berro:
- Vão ou não vão me explicar essa falação ridícula?
- Não!
E ambos voltam a gargalhar despudoradamente.
Eu sorrio, olho para dentro e a lembrança não dói. Pelo contrário, lembro-me da primeira luz da manhã que lutava para atravessar os vidros da janela diante da cama em que eu estava presa havia semanas. Os vidros eram irregulares e, com eles, o sol nascente tecia tramas incríveis. Eu podia perceber os raios que conseguiam penetrar primeiro. Depois, vinham os segundos que, lutando com espessura da vidraça, penetravam mais fininhos e mudavam a cor do quarto; e, então, aos poucos, as cores entravam uma por uma, de mansinho, até que, todos os raios, vencendo completamente os vidros da janela, explodissem o quarto inteiro em cores inimagináveis. Eu comemorava a vitória do sol e recebia no meu leito de hospital uma multidão de seres luminosos, sem corpo, que contavam histórias de universos distantes, de outras gentes e seus destinos insuspeitados.
Magda Maria Campos Pinto
 

Pingos de chuva no vidro

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