sexta-feira, 19 de junho de 2015

2 º capítulo:

Última vez.
Assustada com a força de tão inoportuna lembrança, encontrou-se novamente no meio da batalha que se travava dentro da sua barriga como se um animal feroz estivesse enjaulado ali. Quis chorar; mas havia decidido que não, nunca choraria; decidira jamais chorar da mesma maneira que decidira tantas outras coisas: casar-se-ia, seria feliz, não permitiria que nada desse errado em sua vida; afinal, não era estúpida, era diferente. Sim, parecia-lhe estúpido ser fraco e triste. Portanto, seria, porque queria ser, a redenção da antiga tradição de fracassados, excluídos e malditos. Era assim que a mulher via seus antepassados. Seus antecessores, a seu ver, eram, na verdade, um punhado de débeis imbecis.
Com ela era diferente. Seria magistral. Era capaz: esposa perfeita, mãe notável, amiga impecável, profissional exemplar, cidadã consciente. Uma pessoa realizada, afinal. Pura questão de decisão e de força de vontade. Coisas que não lhe faltavam. Portanto, obviamente, tudo daria certo, todo mundo a admiraria, tudo muito simples; era uma mulher esperta, não cometeria erros. Planejava a vida nos mínimos detalhes. Tudo muito bem pensado. Sempre.
E tudo estava correndo muito bem. A vida é uma questão de atitude, a mulher repetia para si mesma. E ela decidira tomar a iniciativa, era inegável. Sentia-se muito bem entre aqueles malditos picos de dor.
Estava casada com o homem com quem resolvera casar: o melhor partido. Rico, aristocrata e inteligente (gostava de imaginar assim, pensou assim quando aprendeu a palavra ‘aristocrata’ que, era preciso confessar, não compreendia muito bem, mas gostava). E melhor, tratava-se de um homem muito sistemático, todos diziam. Um homem não que dava atenção a ninguém, era fechado e antipático, um antissocial, diziam também. Contudo, com perseverança e delicada habilidade, ela descobriu-lhe o segredo: ele era um triste, um solitário amargurado. Um egocêntrico, ela considerou entre meio sorriso. Um fraco, em outras palavras. E decidiu: jamais o deixaria. Tampouco ele a ela. Estava decidida. E a mulher tornou-se de uma fidelidade canina. Quem a removeria?
Foi por isso que ela transformou aquele infinito orgulho masculino em seu maior aliado. Ele não poderia censurar-lhe: ela seria exatamente como ele queria, ou melhor, ela reconsiderou: que ele fosse como quisesse ser, era-lhe indiferente. Não mudava a estratégia; apenas o entendimento, e isso era de somenos.
Nunca questionou aqueles tristes e incompreensíveis sentimentos sombrios, nem mesmo tocou em assunto tão íntimo, dizia para si mesma. Aceitou, respeitou e suportou as obscuras e impenetráveis emoções daquele homem sem jamais interrogá-las. Quem a condenaria? Muito antes pelo contrário, não tinha dúvidas. E mais ainda, nunca deixaria de declarar-lhe amor e lealdade eternos. 
Magda Maria Campos Pinto

Mulher no Poder

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