sábado, 20 de junho de 2015

3º capítulo:

Estava feito. Conseguira. Certo que as coisas não aconteceram exatamente conforme os seus sonhos, mas não importava. A cerimônia do casamento foi como ele quis que fosse: nenhuma. E depois se mudaram para uma casa comprada bem pronta e muito bem decorada: um belo sítio nos arredores da cidade que crescia velozmente.
Não houve viagem de lua de mel. Não se importou; eram um casal diferente, de personalidades fortes, diziam, e ela gostava, e reafirmava aquilo que todos diziam. O realmente importante era que realizara seu primeiro projeto. Sabia-se (ou pensava-se) invejada pela maioria das mulheres. Isso importava. Era-lhe maravilhoso.
A mulher continuava rememorando a vida, ou talvez, quem sabe, tentando acalmar-se entre os terremotos de dor.
Havia conquistado medalha de ouro na faculdade; ‘algumas vezes’, recordou-se; trabalhava para uma grande multinacional, com chances de carreira brilhante - aliás, não tinha dúvida de que chegaria à diretoria.  Ninguém tinha. Estava focada, trabalhava como ninguém, uma incansável, era o que diziam também. Ela comemorava; afinal, era popular, bonita, admirada. Um exemplo. Que importa se o marido é um mal humorado esquisitão? Pior para ele. Quem se importaria? Como?
E agora, estava nascendo o primeiro filho. Parto natural: outra decisão de que não abriu mão, apesar de conselhos contrários. O risco fazia parte do plano de uma vida bem sucedida: pensou. Provaria definitivamente que era uma mulher corajosa e diferenciada. Não se dava ao luxo de temores. Um parto natural, considerado arriscado, era prova de que não viera ao mundo para brincadeiras. Viera para vencer.
Que posição impensável! Pensou ‘impensável’ quando se percebeu deitada numa maca de ferro, de pernas abertas, numa sala fria, rodeada por quatro pessoas aflitas.
Outra onda de dor dilacerante e os idiotas de branco estimulando entusiasticamente: ‘vamos lá, respire, vamos lá... Está quase...!’
Tudo absurdamente estúpido, obviamente bizarro; mas não daria sinal de crítica, muito menos de sofrimento e desamparo. Não lhe convinha.
 A enfermeira mantinha-se calada e, concentrada, ajudava aos homens. Ajudava aos homens. Calada. Idiota. O que era a vida para aquelas pessoas? Nada, nada além do cumprimento de um dado destino. Uma resignação, uma mesmice. Nada. Respirou fundo, tentou sorrir, gemeu um agradecimento e, novamente, convenceu-se de que tudo estava correndo muito bem. Era uma pessoa diferenciada, repetia-se.
Olhou outra vez para o homem mudo de braços cruzados: ele fixava a barriga sem piscar; estava emocionado, chamou-o ‘meu bem’, ele se aproximou e, sem dizer palavra, segurou-lhe a mão. Não a olhou nos olhos.
Subiu outra onda torturante e ela gritou. Sentiu que lhe arrancavam as entranhas e era verdade: suas entranhas escorriam pela vagina esvaziando-a por inteiro.

Magda Maria Campos Pinto

sonhos-3

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