segunda-feira, 8 de junho de 2015

3º capítulo:

Trazidas pela luz do sol, vidas extraordinárias visitavam-me. Certo dia chegou um rapazinho louro de ombros largos e pernas de aço, redondas como as rodas de uma bicicleta. Ele me carregou para o universo dele, onde todos tinham pernas redondas e viviam girando, girando, girando. Lá o sol era azul e luas diversas mudavam, a cada dia, a cor da noite.
Em seguida, lembrei-me da música dos dias chuvosos quando a água, fustigando a janela, trazia-me outros universos; agora, infinitos universos musicais. Ouvi todas as melodias que a chuva sabe compor quando encontra os vidros de uma janela; as raivosas ou simplesmente enérgicas, as melancólicas e as românticas, e ouvi também as eternas sinfonias que podiam durar uma noite inteira.
Lembrei-me ainda dos pequenos poetas que cantavam sempre; seres pequeninos, mínimos, quase invisíveis, que eu entrevia entre as folhas da árvore que alcançava a janela; eles chegavam ao fim da tarde para esperarem comigo pelo meu pai.
E, então, revi os pequenos olhos do meu pai que, todo dia, final da tarde, chegava cansado sem querer mostrar cansaço; trazia sucos muito doces que eu não queria, não gostava e recusava terminantemente enquanto ele pedia perdão com aqueles irrequietos olhos negros. Eu não sabia por que ele pedia perdão, mas não perdoava.
Ele pediu perdão todos os dias, sem descanso nem desânimo, até que eu me sentisse poderosa e rainha, escrava somente da vida, convencida de que o amor dele era muito maior do que a minha dor paralisante, e que ele era mais forte do que todos os gigantes de branco que me espetavam, diariamente, várias vezes.
E, então, quando eu voltei a me mostrar gente viva e decente, ele voltou a sorrir das muitas maneiras que sabia, principalmente com os olhos, e começamos a conversar longamente, sempre com poucas palavras. 


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