terça-feira, 9 de junho de 2015

4º capítulo:

Ele pedia perdão porque eu estava sofrendo e ele não podia fazer nada; e eu não havia compreendido ainda que eu era a dor de uma vida, eu era a minha vida; e ele não viver a vida que era minha. Ele se sentia culpado diante de uma vida, a minha, diante de mim que ainda acreditava – e precisava continuar acreditando – no poder dele. E ele se sabia muito pequeno diante daquele mistério, mistério da vida que ele amava, mas que o submetia.
Mas tudo isso ele só me contou depois, muito tempo depois, quando eu já havia me reerguido, dominado a dor e aprendido a me comportar com a dignidade e coragem que a boa vida merece. Dizia-me ele.
Certa tarde, ele contou – falava com autoridade, algumas palavras apenas, falava como se estivesse dizendo outra coisa; a história, a essência da história propriamente dita, ele contava com os olhos, ou seja, a gente tinha que encontrar as palavras – mas, dizia eu, certa tarde ele me contou que as mulheres podem conversar com todos os seres do universo, inclusive com os que ainda não existem, pois elas podem criá-los.
Aos homens, cabe esperar. Eles não podem querer o que ainda não existe, só mulheres são capazes disso, só mulheres querem e inventam coisas inexistentes. Com poucas palavras, dizia-me o meu pai, que as verdades são invenções das mulheres.
Durante aqueles meses eternos, todo dia, toda tarde, depois do trabalho, ele chegava com o suco e mais um pedaço da história dos homens. Se eu aceitasse o suco, ele continuava a história.
Aos homens, resta acreditar no que as mulheres inventam; às vezes, é difícil acreditar nas invenções femininas, ele me repetia com um permanente e enigmático sorriso. E bem humorado e, ao mesmo tempo, um tanto debochado, emendava: para mulheres, uma coisa pode ser muitas coisas. Multiplicação impossível para um homem... 
Magda Maria Campos Pinto
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário