terça-feira, 23 de junho de 2015

4º capítulo:

Houve um segundo de silêncio absoluto e, logo, se ouviu um choramingo minguado, sentido, magoado. Alguém, um dos homens de branco, suspendeu à altura da própria cabeça, uma coisa suja e mal-cheirosa, uma coisa que tremia e gemia. A enfermeira idiota bateu palmas e quase berrou: ‘nasceu o herdeiro’!

A mulher sorriu de volta simulando empolgação, aliviada com o imediato fim das tormentas de dor, quase disse ‘graças a Deus!’, mas disse ‘meu filho!’ e abriu os braços.

Colocaram-lhe aquela coisa suja e mal-cheirosa sobre o peito; e aquela coisa suja e mal-cheirosa calou-se imediatamente quando tocou seu peito suado e arfante. Abraçou a coisa empenhando o seu melhor desempenho e olhou para o homem ao lado: ele estava trêmulo e lágrimas caladas rolavam pelo rosto endurecido. Fixava a coisa e balbuciava incompreensivelmente. A mulher soube que eram palavras de amor e se empolgou. Repetiu: ‘meu filho, meu filho querido’ e encarou a criança.

Era um rosto redondo, pequeno, a pele evidentemente morena, embora estivesse coberta de sangue e outros restos. Fartos cabelos negros e lisos. Os olhos, fechados. Estava sossegado, nu, entregue.  Não se parecia nada com ela: uma mulher grande, clara, sardenta, rosto largo, sorriso amplo, pequenos olhos azuis.

Continuou detestando tudo. Continuou sem dizer que detestava tudo.

Teve vontade de chorar, mas não chorou. Aquele pequeno rosto moreno de cabelos negros era a prova definitiva de que tudo aquilo lhe era completamente estranho, mas também era a prova de que estava vencendo a batalha. Estava fazendo sua vida dar certo. Estava quase lá, no auge. Um filho era o fecho lógico e imprescindível de uma vida bem sucedida. Então, logo logo, poderia aproveitá-la, ela, a vida, usufruir do próprio sucesso, gozar de um-tudo. A mulher pensou intimamente, e sentiu-se, absolutamente, secretamente, visceralmente feliz.

 Finalmente pegaram aquela coisa e disseram: é lindo, saudável, grande, perfeito. Disseram: está de parabéns, não se preocupe, não fique ansiosa, logo o traremos de volta para você.

Que o levassem, foi o que a mulher pensou; e se sentiu aliviada e livre.

Procurou pelo homem carrancudo: ele saíra seguindo a alvoroçada enfermeira que carregava o bebê. Suspirou, mas sorriu: mais uma etapa. Ela lhe dera o filho; ele não poderia esquecer-se disso. Era irremediável.

Ela podia descansar.

E logo, logo, lhe trouxeram a criança de volta. Ainda não havia se recuperado, sentia-se ligeiramente apreensiva: feliz com a realização, aborrecida com o estrago feito no corpo, reflexiva quanto à continuidade de seus planos. Não sentia dor, era verdade; sentia-se bem, diria até totalmente bem não fossem os seios grandes e inchados; sensíveis e feios. Uma deformação. Não fosse a barriga edemaciada e, ao mesmo tempo, tensa. Era horrível. Melhor não pensar. Afinal, estava tudo bem. Repetiu-se.

A criança chegou limpa, cheirosa, lindamente vestida, trazida pelo homem, mais sério ainda, e ainda vestido com o ridículo avental verde. Continuava concentrado, evidentemente orgulhoso, com a criança nos braços.  Entregou-lhe o bebê enquanto a enfermeira disse que ia ajudá-la a sentar-se apoiada nos travesseiros: era hora de amamentar. A criança estava quieta de olhos fechados. A enfermeira continuou: ‘é bom começar logo a amamentação’.

Arrepiou-se; incontáveis vezes ela temera por aquele momento; não conseguia imaginar tamanha bizarrice; parecia-lhe abuso, indecência, coisa abjeta. Imaginou, algumas vezes, que escaparia de tamanho primitivismo, afinal, muitas mulheres não têm leite e, certamente, seria o seu caso; havia alguns casos na família; não conseguia achar nenhum porquê, nada que justificasse a estranha situação de ser sugada por um pedacinho de carne; não encontrava sentido na fala irrefletida: ‘é saudável amamentar’; fácil encontrar tudo nas prateleiras do supermercado; tudo pronto, bem dosado, exato,  bem feito, nada para preocupar-se. A conversa sobre a importância da amamentação era imaginação de mulheres recalcadas, fracas, sem ideias próprias ou, então, era ideia dos homens, livres disto, deste estúpido vexame de ser chupado ávida e dolorosamente por um ser estranho. Fácil falar, muito fácil, e só fala quem não se dá ao trabalho, sabia muito bem disso. Só idiotas complacentes e sem ideias próprias podiam gostar de desmesurada coerção. A mulher pensava.

Magda Maria Campos Pinto

Se seus sonhos estiverem nas mãos do dono do mundo, fique tranquilo, eles não serão apenas “sonhos”..

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