quarta-feira, 10 de junho de 2015

5º capítulo:

Fiquei tão impressionada com a sabedoria do meu pai que, mesmo depois de saber que ele inventava tudo aquilo só para me consolar, para que eu pudesse ficar imobilizada naquela cama sem enlouquecer, ainda assim, até hoje, muitas vezes, consolando-me, eu invento universos. E acreditando naquilo que eu invento, eu me salvo e, então, a vida me resgata. Aliás, é melhor confessar logo que eu só acredito naquilo que eu mesma invento.
Muito tempo depois, encontrei bibliotecas inteiras, montanhas de livros que tentam desvendar os caminhos das mulheres. Nessas horas, eu sorrio e revivo o segredo inventado pelo meu pai: não existem caminhos traçados, a gente tem que esperar uma mulher inventar; depois que ela inventa, a gente acredita e vive das criações delas; se não inventar nada, não é mulher...
Eu me lembro muito bem, eu me senti pessoa muito importante com a verdade que meu pai criou para mim. E sigo minha vida inventando, inventando, inventando...
Então, nesse mesmo momento, ouvi o absoluto silêncio que reinava no quarto e vi, com surpresa, que Théo chorava. Ao mesmo tempo, Luis, calmo e senhor de si, olhava-me com ternura, atento a tudo que eu falava.
Tudo ao contrário, eu pensei. Théo aflito, Luis tranquilo. Beijei carinhosamente a nuca de Théo, coisa que o perturbava, mas de que gostava muito e que, apesar disso, raramente, permitia. Sim, eu o conhecia bem. E ele deixou que suas lágrimas corressem soltas pelo rosto. Continuei beijando-lhe a nuca e perguntei, baixinho, pela próxima pergunta. Ele não se moveu. Luis decidiu arriscar-se:
- Continua, quando seu pai morreu, você quis calar-se para sempre...
Théo estremeceu, mas se conteve. Respirei fundo e decidi que eu saltaria novamente. Eu gostaria de calar-me, mas isso não significava recuar. Por isso, senti um calor doce no peito e meu corpo cresceu. Murmurei (era quase inaudível):
- Eu posso dizer que a página foi virada; posso. Agora eu sei que aquela gente só mentia; eram seres infames, indignos da vida, seres maquinários. Posso dizer também, que as crianças já escaparam das cavernas e aprenderam outras linguagens. Elas estão livres. Digo isso e me calo quanto ao resto; está tudo certo.
Magda Maria Campos Pinto
 

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