quarta-feira, 24 de junho de 2015

5º capítulo:

Mas a mulher sorriu com calculada doçura, disse ‘sim, sim, dê-me logo o meu filhinho’ e respirou fundo. A enfermeira foi abrindo-lhe a camisola e, ajeitando a criança em seus braços, expôs-lhe um seio. Colocou o bico túrgido na boca da criança que, tranquila e voraz, ainda com os olhos fechados, agarrou-o como animal faminto.

Horrorizada, a mulher estremeceu, quase desmaiou; era repugnante; sentia-se desconsiderada e submetida. Abusada. Um ser nada.

Não era. Era ódio, era nojo, era asco; tudo lhe parecia de incalculável irracionalidade. Quase desistiu: a cabeça rodou e quis gritar, quis berrar contra a estupidez da mediocridade; quis jogar longe aquela coisa inominável que queria devorar-lhe sem um mínimo de consideração; sem permissão nem licença.

Por alguns instantes, travou-se uma inenarrável luta entre instintos de sobrevivência e os sentimentos de uma mulher escandalizada e só.

 De repente, a criança afastou-se com força e arregalou os olhos; os olhares da mulher e do bebê encontraram-se pela primeira vez.

E não foi o olhar, foi um pequeno corpo que registrou a iniludível presença de Medeia. Houve pânico; a criança começou a se contorcer e a berrar; um choro desesperado, um desconsolo infinito.

Horror em dobro, repercutido no olhar da mulher estarrecida e, ao mesmo tempo, desesperada pelo desamparo daquele ser que tentava, singela e espontaneamente, sorvê-la. A mulher se conteve uma vez mais e buscou acalentar a criança com perseverante força de vontade. Em vão. Ambos se tornavam mais e mais aterrorizados.

O homem observava inquieto e confuso.

A enfermeira veio em socorro e disse com ternura irritante: ‘tudo bem, calma, tudo bem, isso acontece’ e retirou a criança dos braços da mulher. O bebê se aquietou; a enfermeira disse que faria uma mamadeira e que, depois, tentariam novamente. Era normal, nada demais. Acontecia. Muitas vezes. Normal.

A mulher olhou para o lado e lá estava o homem fixando a criança com os olhos cheios de lágrimas. Sentiu raiva, antipatia, nunca vira aqueles olhos fixados nela, menos ainda cheios de lágrimas.

Controlou-se novamente, abriu um sorriso, disse com voz amorosa: ‘eu queria tanto, tanto’, ‘da próxima vez vai dar certo’, ‘você vai ver, vai dar certo’.

O homem balançou a cabeça ligeiramente. Parecia concordar. Parecia.

Não deu. Nunca deu certo. Miguel recusou o seio que lhe foi oferecido, incontáveis vezes, diante de todo mundo. Recusava peremptoriamente. No íntimo, a mulher sentia-se aliviada; tinha medo da dor, tinha nervoso do contato, tinha horror daquela boca voraz. No íntimo, um alívio que ele recusasse.

Mas, pacientemente, ofereceu o seio à criança engolindo o próprio horror, ou tentando engolir, até que, finalmente, afinal, enfim, foi-lhe dado o veredicto: ela não tinha leite! Infelizmente! Uma pena! Alguém disse. Disse também: mas acontece. E nada demais, uma mamadeira bem dada é sempre bem vinda. Tudo certo. Normal. Assim ficou sendo.

Magda Maria Campos Pinto

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