quinta-feira, 11 de junho de 2015

6º capítulo:

Luis avançou:
- É justo? Fechar o livro e pronto? Injusto...
Théo ainda chorava.
Continuei mussitando por alguns minutos enquanto tomava coragem. Ao mesmo tempo, sentia a imensa dificuldade de romper um hábito. Eu não queria repetir as mesmas palavras, eu queria dizer apenas a verdade. Abandonar hábitos é de fato morrer, é nascer sozinho, criar um corpo novo. Enquanto eu murmurava para tomar fôlego, para obrigar-me a dizer o que eu queria dizer, tudo voltou a doer; o corpo inteiro e cada órgão, e, mais ainda, cada única célula.
Mas lembrei-me que eu era uma mulher, que eu podia criar verdades e, cheia de vida, despedi-me, mais uma vez, das velhas ordens. Saltei para dentro do meu corpo novo; ilustre desconhecido.
A queda não foi veloz nem violenta, pelo contrário, adentrando o meu corpo, pairando como pluma na brisa, eu podia ler ou ouvir - difícil distinguir se eu, verdadeiramente, lia ou ouvia - as inscrições que em mim mesma me revelavam.
- Naqueles dias o meu pai não podia mais levantar-se da cama. Em verdade, havia dois anos que ele vivia a vida dia a dia, com grande esforço, mal conseguindo respirar. Os pulmões haviam-se rendido. Mas ele não, ele não se rendia. Ainda é muito difícil falar porque nunca pude compreender isto: que ele não se rendesse. Que vivesse quando já não se podia viver. Não havia ar.
A vida dele fora a mais ativa que houvera; é praticamente impossível descobrir coisa que ele não tivesse feito ou que não estivesse pronto para tentar. Meu pai experimentava tudo com franca alegria. Seu verbo era experimentar. Porque sofria de um escandaloso amor pela vida, ele era absolutamente humilde diante dela; e pela mesma razão, era absolutamente inflexível para com a soberba dos homens. Então, quando ele não podia mais se mover sozinho e, ainda assim, queria continuar vivo, eu me perdi. 
Magda Maria Campos Pinto

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