quinta-feira, 25 de junho de 2015

6 º capítulo:

Miguel cresceu devagar e arredio. Assustadiço. Não mamou e demorou para andar; não sorria; dizia poucas palavras, e somente se se insistisse muito.

A princípio, dormia pouco e chorava muito. O homem pegava-o no colo; ele se acalmava e até adormecia. O homem oferecia-lhe comida; ele aceitava e parecia satisfeito. Mas a mulher não gostava; dizia que era seu trabalho e se ofendia; murmurava homens não sabem cuidar de crianças; e o marido estava atrapalhando a relação com seu filho. E pegava a criança do colo do homem.

Muito cedo, Miguel revelou um estranho apetite: começou a mastigar roupas e pedaços de madeira. Mantinha os olhos perdidos; não gostava de abraços nem de companhia. Às vezes, poucas vezes, timidamente, buscava o corpo da mãe que nunca estava disponível. Ela trabalhava demais; as tarefas, de casa e de fora de casa, eram intermináveis; estava sempre preocupada e cansada. Impaciente. O filho parecia-lhe manhoso, precisava de castigos para crescer mais esperto, mais consciente da vida, mais forte. Temia que ele se tornasse um bobalhão resignado. E o castigava. Que ficasse algumas horas no quarto: aprenderia a ser mais corajoso e independente. Assim foram os primeiros anos.

Então, ele ficava quieto e silencioso no quarto.

O homem nada dizia; em alguns momentos, também timidamente, tentava abraçar o filho, buscava algo para balbuciar; mostrava-lhe os animais, as plantas e, especialmente, tentava ensinar-lhe a construir objetos de madeira; cogitava que aquele estranho gosto de mastigar madeira relacionava-se ao gosto do próprio pai de trabalhar com madeira; logo, pensava o pai, a estranha mania seria resolvida quando a criança aprendesse a amar e brincar com ela, como ele, o pai, tanto gostava.

O pai construía bonecos, bancos, mesas, armários, cavalinhos. E fazia também esculturas enormes; esculturas que pareciam árvores acariciadas e modeladas pela mão do homem sério. Árvores aflitas. Árvores serenas. Era o passatempo do homem. Sonhava silente e solitariamente: certamente comer madeira era apenas um modo diferente de parecer-se com o pai; com ele, certamente. Ficava feliz; encontrava ali um laço. Um laço! Um laço? Desconversava. As árvores são boas companhias. Cogitava o pai. O filho não ouvia. Ouvia? Ouvia, certamente. Apenas não dizia nada. Pensava o pai, e nada fazia.

O menino ficava olhava-o com o canto dos olhos; mal se movia; algumas vezes fechava os olhos enquanto o homem balbuciava maravilhas da madeira; outras, simplesmente obedecia calado e serrava os troncos imitando mecanicamente os gestos do pai.

O pai ficava triste; ou nervoso. Aquilo não era um laço. Era? Às vezes, resolvia castigar; chamava à ordem, demonstrava autoridade, sacudia verdades para a criança. Nesses momentos, era hora da mulher aparecer; ficava brava, puxava o menino pela mão, dizia ‘meu menino, meu menino, não ligue, não ligue, ele está bravo, mas vai passar’ e carregava-o para longe.

Então, o menino ficava leve, gostava; fechava os olhos, deitava aconchegado entre os cobertores e dormia. A mulher sentia-se com o dever cumprido e, pensava, ao mesmo tempo, vingava-se do homem que mimava aquela criança esquisita. Por que o chamego com o pirralho? Por que tanta atenção, tamanha consideração com o fedelho e nenhuma atenção para com ela, que lhe dava tudo, que fazia tudo por ele?

E, logo, voltava as costas para o fedelho e sumia; tinha muito trabalho esperando. A criança ficava quieta, imóvel, sem saber-se. A mulher desaparecia e a criança permanecia ali: paralisada entre os cobertores, sem saber-se.

E o tempo passava.

Magda Maria Campos Pinto

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