sexta-feira, 12 de junho de 2015

7º capítulo:

Ele ficava na cama, permanecia ali, muito tempo, dias, muito tempo, meses, muito tempo, horas, muito tempo, agora já há anos. Ficava sozinho consigo mesmo, ou, penso agora, sozinho com a vida em si. Ainda me espanto. Assombra-me.
Se alguém aparecesse (raramente alguém tinha tempo para aparecer), ele recomeçava a falar devagar, com esforço, sobre as coisas de sempre: o futebol, a falta de chuva, o excesso de chuva, a corrupção dos políticos... Normalmente. E não posso explicar-me melhor, mas havia gratidão, digo, misericórdia para com os que encontravam tempo para vê-lo, e, por isso, com grande prazer, ele voltava aos assuntos de um cotidiano mesquinho. Ninguém se interessava pela morte. Ou melhor, pela vida que ele vivia.
Entretanto, de fato, permanecia sozinho quase todo o tempo, calado, imóvel, com as mãos cruzadas sobre o peito e, fixando-as, começava a girar os polegares, um em torno do outro, atento àquele delicado carinho entre dedos, pensando, pensando, pensando.
De vez em quando, num outro gesto de piedade, com um meio sorriso misterioso, ele contava uma história; por exemplo, desfiava uma complexa trama para caçar discos voadores (nos quais não acreditava) ou de como criar um partido político que, baseado no campeonato de futebol, dirigiria o país com justiça e prosperidade, ou, então, de como melhorar a educação escolar transformando todas as disciplinas em jogos de baralho. Eu respondia que queria conversar sério, falar sobre ele, ele mesmo, sobre sua vida que... Ele me interrompia, assumia sua autoridade dizendo que não era moleque, que estava falando sério, que aquelas ideias não eram brincadeiras, banalidades ou inconsequências, mas eram puras ideias proféticas. E ditava-me com firmeza: “Quer ver? Escuta”.
E voltava a se calar por algum tempo. E assim, ele me silenciava. 

 Solidão #2

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