sexta-feira, 26 de junho de 2015

7 º capítulo:

O homem falou em ter outro filho; seria bom para Miguel, seria bom para todos. Falou timidamente. A mulher negou-se peremptoriamente. Se com dificuldades com um filho, imagina dois? Onde você está com a cabeça? E vieram discussões. Muitas. Miguel ouvia mudo. Observava quando o pai cedia. O marido cedia. Ainda bem. Cessavam as discussões. Uma criança. O que pode ser isso? Miguel se perguntava. Tudo era muito confuso.

O menino chegou bravo e sozinho à adolescência; calmamente selvagem. Pouco falava; observava a mãe com estranha atenção e nenhum comentário. Não tinha amigos, não gostava da escola e, por vezes, sumia inexplicável e irremediavelmente. Ninguém podia encontrá-lo; era inútil procurar. O menino tinha o estranho dom de desaparecer.

Reaparecia de repente com um meio sorriso nos lábios e, no mais das vezes, carregando alguma carcaça nojenta. Restos mortais, sempre. Ossos, caveiras de diversos animais, pele de cobra, répteis ressecados, pequenos animais mortos.

Começou a colecioná-los num barraco no fundo do quintal.

 O pai revoltou-se: inadmissível tamanha barbaridade. Miguel nada dizia e admirava os restos. Então, o homem invadia o barraco. Limpava tudo, enterrava e, algumas vezes, surrou Miguel. E deixava-o de castigo, sentado ao seu lado enquanto trabalhava silenciosamente na marcenaria.  

A mulher discordava sempre; recomeçavam as brigas.

O adolescente não chorava e continuava olhando para o pai com olhos indefiníveis. Mais assustados que assustadores. Aprendeu que a mãe que vinha sempre para discutir com o homem, para defender o ‘meu menino’, e mais, o direito à diferença, à individualidade, ao gênio mal compreendido. E dizia também: não está fazendo mal a ninguém, jeito dele; o que é que tem demais nisso?

O homem cansou-se. O homem, cansou-se.

Enfim, Miguel ganhou direito à coleção de restos. E o barraco no fundo do quintal encheu-se de pedaços de morte. Em pouco tempo, Miguel mudou-se para o barraco e passou a ficar muito tempo entre eles. Examinava, admirava e não compreendia.

Certa vez, a mãe surpreendeu-o amarrando um gato numa trave de madeira em forma de X. A princípio, ficou apavorada, mas ficou espiando à distância. O menino havia amordaçado o gato e o amarrava prendendo as costas do bicho sobre um x de madeira; as patas ficaram bem presas em cada ponta do x. Depois, o menino afiou um graveto com uma faca, fez uma ponta bem comprida e furou devagar o olho direito do felino; ficou observando o escoamento de uma secreção escura; molhou o próprio dedo, levou-o à boca e provou a secreção; fez cara satisfeita. Repetiu a operação com o outro olho enquanto o gato desesperado se convulsionava preso ao x de madeira.

Paralisada, a mulher assistiu à cena aterrorizante. Viu seu menino levantar-se e se afastar com calma e, calmo, voltar com um alicate nas mãos. Viu quando ele começou arrancar as unhas do gatinho com a mesma volúpia com que lhe furara os olhos.

A mulher não teve mais dúvida: abominava completamente aquele ser. Não tinha nada a ver com aquilo. Retirou-se em silêncio, preocupada em como esconder tudo do homem. Sabe-se lá o que ele faria.

Passaram-se semanas e uma carcaça seca e dura de um gato estarrecido apareceu na coleção de Miguel. Foi nesse dia, dia em que descobriu o resto de um gato torturado, que o homem tomou uma decisão: levar Miguel para o hospital. Não podia negar: o filho estava doente.

O pai chorou, chorou, e chorou. E a mulher desesperou-se, debateu-se, bateu a cabeça, bateu pé, convocou a família, era inadmissível, uma maldade, considerar louco o próprio filho...

Continuou-se, por certo tempo, a interminável batalha entre entradas e saídas do hospital. Repetições. E uma dor impossível acompanhava Miguel como uma sombra sem corpo. Intraduzível. Ninguém via e, se alguém via, era sem querer, muito menos saber sobre a coisa inominável que assombrava aquele menino. O demônio, só podia ser. O demônio em pessoa.

Pobres pais! Murmuravam cabisbaixos e fugidios. Apenas murmuravam.

Magda Maria Campos Pinto

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