sábado, 13 de junho de 2015

8º capítulo:

Depois, de repente, retomava ideias mirabolantes e infalíveis para se ter uma vida boa, dizia ele, ou então, dizia também, gostaria de falar sobre o meu futuro. E recomeçavam os conselhos, recomendações e promessas: acreditar, benquerer, caminhar. E depois (só depois do abc: acreditar, benquerer e caminhar), não se preocupar. Jamais se preocupar.
Impossível saber se era piada. Ou melhor, difícil aceitar que não era piada.
Àquelas alturas, completamente arruinada, eu desmoronava porque não conseguia ajudá-lo. A derrocada da minha insolência era infinita. Sentia-me ignorante e culpada diante dele: eu não me sentia alfabetizada, apesar de todo o seu esforço.
E ele queria minha ajuda, é certo, acreditava em mim: acatava qualquer orientação, aceitava tratamentos e experiências, cumpria as prescrições, nunca falava de dores ou doenças, de injustiças ou lamentações.
Falava da morte, sim, falava sempre, falava seriamente e falava também com chacota. Eu me desesperava. Tentava criar urgentemente alguma história, alguma verdade que o consolasse, que falasse do amor que eu sentia, da admiração, da gratidão... Sim, do medo que a morte dele tirasse a minha vida, era isso, e isso eu não podia dizer a ele, não podia; eu era covarde, eu era eu. Eu tinha medo da vida sem ele.
Ele sabia disso, hoje eu sei; daí, a piedade para comigo.
Ele era um durão, não chorava, nem aceitava desistências fáceis. Mas chorava por causa dos filhos – só pelos filhos -, e só em determinadas ocasiões, e mais, somente quando estava sozinho com a mãe dele, a minha avó; que me contava tudo em segredo e com sincera admiração pelo seu filho.
Ele chorava quando os filhos nasciam, quando as meninas menstruavam pela primeira vez, quando os homens tinham a primeira relação sexual e se algum dos filhos desrespeitasse o bem público, pois, neste caso, ele se enchia de vergonha. Meu pai tinha um deus: o bem público.
Enfim, a verdade é que ele me consolou no tempo da sua morte. Eu inventava histórias: ele conhecia todas. E ria de mim com delicada ironia. 
Magda Maria Campos Pinto

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