sábado, 27 de junho de 2015

8º capítulo:

O marido deixou de falar; a mulher olhava-o com um amor infinito, indizível, cruelmente não correspondido, pensava. Pedia clemência para o seu filho, afinal, era mãe. Repetia-se. E a batalha entre surdos e mudos perdurava.

E Miguel ia se apagando; mais mudo, mais sombra. Não ficava em lugar nenhum; ficava no meio do caminho, entre casa e hospital. Agora, já ninguém falava com ele e ele, se dirigia apenas às coisas inertes.

 E, agora, Miguel também engolia pedras.

Um par de vezes Miguel aproximou-se da mãe e pediu-lhe que o matasse; ela sorriu com piedade, passou-lhe a mão pela cabeça, disse que o amava e que tudo ficaria bem.

Então, ele escapava desesperado e desaparecia por muitos dias.

Um dia, voltou resmungando e trancou-se no barraco. Semanas. Sem banho sem comida.

A mulher sentiu-se em paz. Enfim, Miguel estava seguro dentro do quarto. Ela lhe levava comida e água. Às vezes, ele aceitava, outras não; às vezes, ela levava também um pouco de conversa, roupa limpa, doces; e os olhos de Miguel cintilavam por uns instantes. Alguns instantes, mas ela não via.

O marido continuava dedicado à madeira; construía móveis, brinquedos e esculturas gigantes. Dias e dias silencioso e triste, pensativo, alisando a madeira. Um mudo.

A mulher ia até ele e falava muito, contava as notícias da vizinhança e da cidade, da família e do mundo, falava de tudo, fazia planos, construía mundos e fundos e o levava para a cama. E era feliz.

Miguel começou a debruçar na janela do barraco; logo, passava as noites inteiras debruçado na janela; observava o céu; contava estrelas, e falava; parecia bem, parecia tranquilo. Distante e frio. Ele também vigiava a lua; acompanhava o movimento da bola luminosa durante toda a noite, virando a cabeça, subindo na janela.

E, escapando pela janela, acompanhava a lua atravessando o jardim, o quintal, o mundo; despedia-se da lua quando o sol se anunciava. E voltava para o barraco.

Então, ele fechava a janela, dobrava-se como um boneco dobrável sobre o leito e ficava ali, quieto, entre os seus muitos restos. Não trancava a porta do barraco, mas ninguém se atrevia. A mulher deixava-lhe um prato de comida por dia e alguma água.

Miguel vivia à noite, com a lua e as estrelas.

A mulher sentia-se tranquila; e, afinal, o que mais se poderia fazer? Já haviam tentado tudo. Miguel era irreal, impossível, incompreensível, impensável. E, ao mesmo tempo, havia muito trabalho à espera. Às vezes, a mulher se perguntava por que trabalhava tanto; e achava despropositada a pergunta; era preciso trabalhar, era preciso, claro que era.

Quando a noite chegava, Miguel levantava-se, abria a janela e voltava a observar o céu. E caminhava pela noite.

Inexplicavelmente, o marido, começou a trabalhar à noite na marcenaria; sentia-se muito bem. Não que dormisse durante o dia, pelo contrário, não ficava em casa, fugia para os arredores e trabalhava na terra. Obrigava-se à exaustão; às vezes, capinava o mesmo lugar diversas vezes e plantava o que lhe vinha à cabeça. Sentia-se bem quando sozinho com a terra. Trabalhando ao esgotamento. Dia e noite.

Algumas vezes, a mulher aparecia; bonita, cheirosa e sorridente. Trazia-lhe uma comida boa, um vinho, puxava conversa, ele respondia monossilabicamente e, vez ou outra, aceitava a comida; pedia que ela voltasse para casa, dizia que o lugar não lhe convinha, ela insistia, queria fazer-lhe companhia, ser companheira dele, ser mulher dele. Teimava e ele ficava confuso. Ela não desistia e, algumas vezes, deitaram-se ali mesmo, sobre a terra, entre árvores.

Ela ficava muito feliz, dizia que o amava e que eles eram felizes. Que jamais se separaria dele. Ele nada dizia. Ela ficava satisfeita por um algum tempo. Então, ele voltava a revolver a terra e a serrar a madeira.

Magda Maria Campos Pinto

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