domingo, 14 de junho de 2015

9 º capítulo:

Tudo piorava a cada dia: cada hora menos ar, cada noite mais insônia. Então, aconteceu a noite em que ele tentou levantar-se sozinho e caiu. Na verdade, ele se jogou no chão. Com que intenção, meu Deus? Eu consegui – com que forças, Deus meu? – carregá-lo e colocá-lo de novo na cama, mas antes que eu terminasse de ajeitá-lo entre os lençois, ele sussurrou com sua maneira incontestável:
- Chega! Sai daqui, quero ficar aqui mesmo, sai...
Baixei a cabeça, ‘sim senhor’, e recuei. Mas antes que eu deixasse o quarto, ele soprou:
- Desculpa, não aconteceu nada, nenhum osso quebrado, viu? Os bons têm sorte...
Voltei. Lá estava ele com o mesmo meio sorriso travesso ajeitando-se na posição de sempre. Deitado de costas com as mãos cruzadas sobre o peito, girando os polegares. E o dia seguinte foi um dia bom; brincou descrevendo a bela vista através da janela, outra piada, pois, depois da janela só havia o paredão do edifício vizinho. Uma montanha de concreto. Quando me percebeu fixando aquele paredão com perplexidade, ele riu mais largo e sussurrou:
- Deve ser bonito depois do paredão... Não deve?
- Deve.
Ao longo do dia, elogiou a comida que eu preparei – e que ele não comeu -, perguntou sobre o meu trabalho, contou (mais uma vez) dos tempos da juventude no exército, da disciplina, do medo da guerra. Fez novas previsões para o futuro do país.
Senti-me reconfortada e sonhei com uma noite tranquila. Contudo, chegou outra noite de pesadelos. Os piores: nenhum sono, nenhum ar, só a aflição e a angústia, minha dor e o seu olhar de compaixão por mim. 
Magda Maria Campos Pinto

 346 – A solidão do Chorão

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