domingo, 28 de junho de 2015

9º capítulo:

Uma tarde, o marido estava trabalhando com a enxada, sol a pino, preparando uma plantação de milho, quando se sentiu observado. Procurou. Não viu nada. Voltou ao trabalho, mas a sensação de presença continuou. Voltou a procurar e, depois de indizível angústia (quanto tempo?) descobriu Miguel de cócoras sobre um montículo de terra, entre as moitas de capim, a uns poucos metros. Quieto, imóvel e de olhos arregalados, ele observava cada movimento do homem.
O coração do homem disparou; primeiro de alegria, sentiu a esperança de um encontro, de companhia, de humanidade enfim, e sorriu; cumprimentou-o, convidou para trabalhar junto, disse ‘que bom que você está aqui’.
Não houve resposta nem movimento.
Triste, mas com a picada da esperança no peito, o homem voltou ao trabalho; uma toada de fé na redenção soava em seu peito. O sol começou a descer e nenhuma palavra foi dita. Os primeiros pontos de luz prateada já pintavam o céu escuro quando o homem ouviu: ‘por que você se casou com ela?’.
O desespero explodiu o peito. O homem desatinou. Quase perdeu o controle. Sentiu-se desnudo e desamparado. Observou a enxada nas mãos e pensou em atacar o filho. Conteve-se.
Reviu o passado: era escuro, era triste, não havia escolha, não se lembrava do começo e, cheio de angústia, entendeu que ainda não chegara ao fim. Sentiu uma inexplicável piedade de Miguel.
Mas, sem palavras, continuou quieto e mudo. Paralisado.
Depois, quando a noite já cobria a terra por inteiro e os pontos de luz no céu eram incontestáveis, Miguel levantou-se e voltou ao barraco. Voltou à janela e à noite.
O marido veio depois, mais triste, mais magro, mais velho. Foi para o banho. Depois, sem dar ouvidos aos protestos da mulher, saiu para a marcenaria que ficava ao ar livre, debaixo do enorme jatobá que beirava o jardim interno da casa. Começou a serrar madeira sem nenhum objetivo em mente.
A esposa seguiu-o, obstinou-se e quis conversa; ofereceu jantar, quis notícias da plantação de milho, se fez bonita e dengosa. Ele ficou mais nervoso e mandou que ela desaparecesse. Teve ganas de serrá-la ao meio. Ela saiu magoada e ofendida.
Miguel observava da janela.
Bancos, cadeiras, mesas e armários multiplicavam-se e ficavam espalhadas pelo quintal.
Miguel vivia com os olhos e a cabeça no céu. Tornara-se definitivamente sereno: uma alma pacífica e bonita como um negro céu de inverno completamente pontilhado de prata. Estava mais velho e mais magro; os cabelos, sujos e emaranhados. Uma barba negra insistia em crescer desgrenhadamente. Passava os dias deitado em seu quarto navegando entre estrelas na imensidão escura.
À noite, saía do quarto, acompanhava a lua e conversava com as estrelas.
O imperturbável rio da vida seguia seu caminho. E Miguel seguia quieto no quarto organizando e limpando os restos que recolhia pelos caminhos enquanto acompanhava os astros.

Magda Maria Campos Pinto
 

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