sexta-feira, 5 de junho de 2015

O MELHOR DO CONTO: Alice Munro, prêmio Nobel.

 
"Quando eu era criança, parecia que nunca havia um parto, ou um apêndice supurado, ou qualquer outro evento físico mais drástico que não ocorresse ao mesmo tempo que uma nevasca. As estradas estariam fechadas, de qualquer modo não havia como encontrar um carro, e tinha-se que atrelar uns cavalos para conseguir chegar ao hospital. A sorte era que houvesse cavalos por ali - no curso normal dos acontecimentos eles simplesmente não seriam mais usados, mas a guerra e o racionamento de gás tinham mudado tudo, ao mesmo por um tempo.
Quando comecei a sentir dor na barriga, portanto, isso tinha que ser às onze da noite, e tinha que estar caindo uma nevasca, e como não estávamos com cavalos no estábulo naquele momento, tiveram que convocar a parelha dos vizinhos para me levar ao hospital. Um trajeto de não muito mais de dois quilômetros, mas mesmo assim uma aventura. O médico estava esperando, e não foi surpresa para ninguém quando ele se preparou para tirar meu apêndice."

In Vida Querida, Alice Munro, Companhia das Letras, SP, 2014.

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